“Volver”

Em setembro o calor amaina e eu volto a ser sargento.

Ainda que o aquecimento global ande a contrariar, e eu escreva este texto na praia com 30 graus, sem vento, em plena Senhora da Ajuda, é este o mês em que os dias e as noites se equilibram e eu consigo pôr tudo outra vez na rodinha do hamster: as horas afixadas no frigorífico, o despertador com a hora de deitar, a lista de quem leva quem e a que horas. A minha casa cheia de crianças, de ideias e de ambições não funciona de outra forma.

Volver é a palavra. Em vez de regresso às aulas, devíamos dizer volver às aulas. Volver vem do latim volvere, que não quer dizer voltar. Quer dizer girar, rolar, dar a volta. E é aí que a coisa fica interessante, que volver nunca foi chegar a lado nenhum — foi sempre o movimento circular, a órbita, aquilo que anda e regressa ao ponto de partida. E sabem onde é que ela ficou presa? Meia-volta, volver. Deixámos a palavra presa no exército. Mas volver teve uma vida, um uso antes disso. Volver o olhar, que é virar a cara para alguém. Volver à terra natal. Volveu a chover. Em livros antigos, volver era responder – “não sei”, volveu ele – porque responder é devolver a palavra a quem a atirou, como se a conversa fosse uma bola e alguém tivesse de a mandar de volta. E sobrou-nos o particípio, o único que ainda aparece aqui e acolá: volvidos dois anos. Volvido o verão. Volvido setembro. O tempo não passa, o tempo volve.

E se o tempo volve, a rotina também. E rotina tem uma injusta má fama. Dizemos rotina como quem diz cinzento, dizemos “caí na rotina” como se fosse um buraco, e eu tenho para mim que é ao contrário: a rotina é translação. É andar sempre à volta e parecer que não se sai do sítio, enquanto se expande e se constrói qualquer coisa. Pequeninos passos, todos os dias, que parecem não contar.

Vejam a Terra. Faz a mesma volta todos os anos, 365 dias e umas horas, sem novidade nenhuma, e nós chamamos-lhe ano e ficamos convencidos de que não mudou nada. Só que os continentes andam dois ou três centímetros por ano, tanto quanto uma unha cresce, e foi assim que o Atlântico se abriu inteirinho. Desapareceu a Pangeia, sem um único acontecimento. Só voltas.

As nossas vidas e construções são iguais. Não há nada que se construa de um dia, vem tudo de um acumular de voltas. Uma criança não aprende a ler num dia: primeiro conhece as letras, depois o som, depois vai juntando ao longo de cerca de duzentos dias de rotina. E um espetáculo não se aguenta numa ideia genial, exige a luz, o cenário, o ensaio, a repetição. Nada se aguenta nas festas e feriados de junho ou de dezembro, aguenta-se nas segundas-feiras em que alguém abre a porta cedo e volta na terça. Aguenta-se dos meses em que efetivamente se mantém a rotina.

Agosto custa porque me tira a órbita. Semanas sem horários para ninguém, miúdos sem objetivos, pais a entregar-se aos ecrãs porque é o que fazemos quando a estrutura desaparece. Miúdos birrentos, aborrecidos porque não sabem racionar e racionalizar o tempo que têm. Chega setembro e a gente estranha a própria vida como quem muda de casa. É uma órbita a arrancar do zero, pura e simplesmente.

Daí o sargento. Daí as rotinas no frigorífico, formas de pôr a casa, a vida, as horas do relógio outra vez a girar para que daqui a um ano alguma coisa se tenha mexido dois centímetros sem que déssemos por ela. A Lua também se afasta de nós 3,8 centímetros por ano e ninguém dá por nada, e nem por isso deixámos de ter marés.

Setembro não é voltar, é volver. Entretanto, chegamos ao mesmo ponto, mesma mesa, mesmas pressas matinais. E eu gosto delas. Meia-volta, volver.