Turismo de Natal

Dou por mim cada vez mais a pensar como eram tão mais mágicas aquelas iluminações kitsch (patuscas, vá) que antigamente havia nas festas populares. Hoje em dia as iluminações também se adaptaram ao mundo da tecnologia e conseguem ser indubitavelmente surpreendentes a nível de design e a nível técnico, mas, curiosamente, têm menos magia. Talvez porque o mundo de hoje já é tão cheio de luzes por todo o lado. As luzes dos carros sempre a circular, as luzes das lojas sempre acesas para nos lembrar que falta comprar, e depois há aquela luzinha que nos acompanha constantemente a trinta centímetros do rosto para todo o lado!

Antigamente, havia o dia (ou a noite, aliás) de ir, em família, “ver as luzes”. Percorríamos a cidade olhando para cima com fascínio e reverência. Demoravamo-nos pelas ruas, a reparar em cada montra, tão bonitas todas. E sentíamos, na simplicidade do “uma bola aqui, um laço acolá”, uma magia que nos aquecia por dentro.
De há uns anos para cá surgiu, de forma galopante, o turismo de Natal e Espinho está, sem dúvida, nesse mapa. Podemos passar de novembro a janeiro um fim de semana numa cidade diferente e usufruir de atividades que nos fazem mergulhar verdadeiramente no mundo do Natal com propostas de animação, entretenimento, gastronomia e muito mais. A magia deixou de estar nos arcos acima das nossas cabeças e agora há um “pisca-pisca” que vem de todas as direções.

Só que, no meio disso tudo, parece-me que as montras também já não são o que eram. A montra de uma loja deve ser, a meu ver, uma janela mágica, seja grande ou pequenina. A montra representa o espaço que se abre para o que está no seu interior, que permite a quem passa perceber qual é a identidade do negócio, que deve despertar o desejo de entrar, e o lojista pode e deve usá-la para comunicar com os seus “voyeurs”. É bonito quando notamos, numa montra, onde alguém dedicou tempo e usou a capacidade criativa no sentido de “embrulhar” de espírito natalício os produtos que vende, encontrando assim uma forma divertida, ternurenta ou mesmo surpreendente de criar essa ligação e, assim, transmitir uma mensagem a quem passa. Penso que se nota claramente quando existe esse investimento, e aqui ainda há lugares assim: a Farmácia Higiene, a Backdoor, o Mar de Prendas e mais um ou dois salões de chá que apostam no vitrinismo como uma forma de comunicação com quem passa. Contam uma história através das montras e acho isso delicioso! Há um esforço para atrair a curiosidade pelo próprio produto e não por luzes e objetos grandes com purpurinas, iguais aos demais, colocados sem critério junto a eles (ou, por vezes, substituindo-os na totalidade).

Não há tempo, não há necessidade para mais, mas é pena. Para vender não devia bastar ligar umas luzes e forrar tudo de dourado; devia ser preciso um pouco mais para que quem circula ceda ao consumismo. Todos sabemos que o que importa não são as prendas. Mas comprar, comprar, comprar é o que tende a comandar nestas semanas que antecedem o Natal. Cedemos todos à pressão de ter de arranjar presentes para este mundo e o outro. Porque se vamos dar um “miminho”, como muita gente lhe chama, ao amigo X temos de dar também ao amigo Y e miminho não devia ser isso.
E depois ainda há outra coisa! Todos caímos no mesmo erro: perguntar aos filhos ou aos sobrinhos o que vão “pedir ao Pai Natal”, só porque nós temos cá dentro entranhado e incutido o “comprar, comprar, comprar” e porque estamos tão concentrados naquela luzinha a trinta centímetros da nossa cara que nem conhecemos os que nos rodeiam e os seus gostos. Temos de nos mentalizar que eles não iriam sequer pensar em pedir fosse o que fosse se não puxássemos o assunto. Vivemos num mundo em que criamos vontades, em nós e nos outros, e não sabemos mesmo sair deste circuito.

Há que mudar a pergunta. “O que vamos construir um para o outro este Natal? O que vamos construir um com o outro este Natal? O que vamos dar de nós aos outros este Natal? De que forma vamos nutrir juntos esta época?”, e parece-vos ou não muito melhor? Ah e já agora, reutilizem o papel de embrulho e as fitinhas do ano passado que têm naquela gaveta ou caixote esquecido arrumado algures (ou puseram tudo ao lixo?).