Todos nós temos sonhos, não é? Coisas que ambicionamos um dia conseguir ter, um lugar onde queremos muito ir, uma sensação que desejamos experienciar… um emprego específico, uma viagem, um filho, uma casa são sonhos bastante comuns. Por vezes focamo-nos num deles de forma comprometida e consistente a vida inteira, mantendo durante anos e anos esse foco. E por vezes, se tivermos uma personalidade forte e um grande espírito de iniciativa, até o conseguimos agarrar.
Hoje debruço-me num pensamento. Quando conseguimos finalmente concretizar um sonho, como nos sentimos nesse preciso instante? Sentimos exatamente aquilo que imaginámos que iríamos sentir, ou o sabor é diferente?
Não esqueçamos que, quando andamos por muito tempo a ambicionar algo, a vida vai acontecendo, outras vivências vão aparecendo, vamos modificando, crescendo, ganhando consciência de outras coisas. E, por vezes, já foi há uma vida que formámos em nós esse desejo pelo que, quando ele se concretiza, o vivemos de uma forma completamente distinta do que o teríamos vivido se ele se concretizasse logo à nascença. Quando finalmente nasce o filho, anos depois das primeiras tentativas de o conseguir, é tão bom ou é melhor do que se tivéssemos conseguido à primeira tentativa? Quando finalmente compramos a nossa casa, após tantos anos a desenhá-la na nossa imaginação, sentimos aquela euforia que teríamos sentido se ainda tivéssemos dezoito anos e tivéssemos pressa de ser livres e deixar de viver com os pais?
Eu quero ter uma casa no campo. Com árvores de fruto e muros de pedra. Já o quero há muitos anos e, sejamos francos, penso que acabarei por nunca a vir a ter (e está tudo bem). No entanto, se um dia se concretizar, fazendo as contas à vida que levo, acredito que só irá acontecer daqui a uns vinte anos. Consigo colocar-me nesse tempo e com essa idade e tenho quase a certeza que, se se tornar real, essa concretização será uma coisa morna e pouco efusiva.
Quando temos um sonho queremos que ele aconteça já! Somos impacientes, não temos vontade de esperar. Verdade seja dita: se conseguíssemos que os sonhos se concretizassem logo quando se formam no nosso coração, seria incrível; tantas vezes iríamos poder sentir a felicidade, porque os viveríamos de forma incrivelmente intensa.
Por outro lado, não se concretizarem de imediato também tem o seu encanto: é que assim eles crescem, ganham forma, espraiam raízes dentro de nós e, quando os atingimos, a sensação de vitória é muito maior, pois foi com persistência e coerência que nos mantivemos o tempo todo – e sentimo-nos orgulhosos tanto de ter esperado como de ter conseguido. Mas não raras vezes, esse conseguir deixou um rasto que perturbou a vida de umas quantas pessoas. Colegas, família, amigos… Toldados pela luz que buscamos no fundo do túnel, andamos sempre a direito e nem damos conta. Nem nos colocamos no lugar do outro para observar, de forma distanciada, o efeito borboleta que produzimos. Nem damos conta das coisas que deixamos de experienciar, de apreciar, por causa disso. Os amigos queixam-se, a família queixa-se, mas não temos tempo, não importa, não conseguimos. Desculpamo-nos, mas nem sentimos culpa.
Haverá uma forma de todos nos guiarmos da forma que nos é conveniente e termos o cuidado de não atrapalhar nem magoar os outros? Seria perfeito… Mas o mundo gira sempre em círculos e repetimos sempre as mesmas falhas, as mesmas maldades, as mesmas desconsiderações.
Ainda há quem sonhe mandar num país grande, como no tempo dos reis. Quem sonhe mandar num país em que todos são puros, mandar num país em que não existe quem não é de lá. Onde não vive quem não pensa igual. Quem sonhe mandar num país criado à sua imagem e conforme as suas vontades. Como é possível ainda haver quem tenha sonhos assim? Se calhar, devíamos nascer todos configurados para termos o mesmo sonho, antes de qualquer outro: SERmos humanos!
INFO
ARQUIVO
LOCALIZAÇÃO & CONTACTOS
@ 2026 Maré Viva – Jornal Regional de Espinho
Made by CircleTec.
Para proporcionar as melhores experiências, utilizamos tecnologias como cookies para armazenar e/ou aceder a informações do dispositivo. Ao consentir com estas tecnologias, permite-nos processar dados, como o comportamento de navegação ou ID's exclusivos neste site. O não consentimento ou a sua retirada pode afetar negativamente certos recursos e funcionalidades.