Saudosas férias grandes

Há sempre uma nostalgia que desce ao peito ao recordar as férias de verão que nos foram proporcionadas quando éramos miúdos e, quando somos pais, uma tremenda dificuldade em trazer às nossas crianças a oportunidade de ter vivências semelhantes.

No nosso tempo, elas chamavam-se férias grandes, porque, de facto, eram! Passava-se um mês inteiro no parque de campismo ou na casa de familiares. Mudava-se de mundo por um grande período de tempo – e isso era uma dádiva. Ficava-se o dia inteiro na areia, junto ao rio, no campo… Só se entrava em casa para as refeições e, claro, na hora do banho.

Tínhamos os amigos das férias que encontrávamos ano após ano e sentíamo-nos livres com todo o tempo que o dia tinha: para conviver, desligar, brincar. Só tínhamos de picar o ponto para as refeições. E não podíamos desaparecer sem antes lavar a louça!

Não havia nada programado para fazer e isso era um programa mesmo bom.

Para os adultos, a história era um pouco diferente. Eles organizavam as suas pequenas férias de forma a que fossem ao encontro das nossas grandes férias. Hoje em dia, deixamo-nos levar – pelo menos os que são pais – pela designação “interrupção letiva de verão”. Que desilusão! Nem apetece.

Quando finalmente chegam as férias já temos uma lista de imensos sítios aonde ir, muita coisa que queremos fazer com as crianças e reservamos as férias para isso. Mas depois estas são muito organizadas e fogem, por vezes, da sua verdadeira essência: uma oportunidade para o espaço vazio, a liberdade, o lazer, o parar, desorganizar um pouco a vida também. E fazer isso em família!

Se os momentos de férias são atualmente mais estruturados e menos espontâneos, responsabilize-se os adultos de hoje que, mesmo tendo respirado o ar do campo ou do mar dias a fio outrora, impingem a sua dinâmica muito planeada aos pequenitos, não se recordando de que estes só poderão saber a que sabem umas “férias grandes” se nós abrirmos espaço para isso.

Nos meses de verão, a energia da cidade muda. Fica toda agitada e confusa, as movimentações das pessoas são diferentes, os ritmos dos lugares têm interferências. Para mim, estar em férias na cidade com essas mudanças à minha volta não funciona bem. Mas, quando vou para outros lugares, tenho consciência de que também lá causo agitação com as minhas movimentações. Cada vez mais tomo consciência de que é preciso saber estar em férias.

Há uma energia e uma identidade de um lugar que visitamos que deve ser respeitado, não é salutar usufruir dele sem cuidar dele um pouco também. Custa-me testemunhar o rasto de vida humana que fica no areal a cada final de tarde, seja na minha cidade ou em qualquer outra. No tempo em que éramos miúdos quase não havia caixotes de lixo, mas era tudo mais limpo.

Havia tempo nas férias. Tempo para chegar sem estragar, descansar sem sujar, deixar os lugares como os encontrámos. A quem está ou vai de férias, que seja um tempo-dádiva para repensar nisto e naquilo (mas sem pensar muito).