Quanto custa a ilusão?

O espetáculo, que decorreu no penúltimo dia do Imaginarius, é um convite à reflexão sobre o significado das sociedades capitalistas e a importância que o ser humano atribui ao dinheiro.
Junto a três instituições bancárias, John Fisherman distribuiu dinheiro ao público do festival (DR: Imaginarius)
Junto a três instituições bancárias, John Fisherman distribuiu dinheiro ao público do festival (DR: Imaginarius)

Desconcertante, provocador, um verdadeiro murro no estômago. Money for Free – Acts of Liberation tomou conta do centro da cidade feirense na 24.ª edição do Imaginarius, para explorar até onde o ser humano está disposto a ir na busca pelo dinheiro. O anúncio circulou nos jornais e nas redes sociais: um artista iria distribuir dinheiro na tarde de sábado. Não surpreendeu, por isso, a concentração de pessoas atraídas pela curiosidade do que iria acontecer ou, quem sabe, pela esperança de ganhar alguns euros.

Sergi Estebanell e o seu colega começam por conhecer o público. Perguntam pelos motivos que os trouxeram ali, o que pensam do dinheiro e que importância tem nas suas vidas. Feita a introdução, surge, do topo de um prédio, a enigmática personagem John Fisherman. De rosto coberto, enverga uma capa impermeável amarela, como se fosse um pescador, e segura uma cana de pesca. Desce do prédio até ficar a cerca de 20 metros do solo.

Enquanto o coletivo conversa com a audiência, alguns confessam que vieram pelo dinheiro. Uns dizem que o Mundo seria melhor sem ele, outros acham que seria um lugar mais triste. Perguntam, então, a Fisherman se tem dinheiro (real) para distribuir. Ele acena e indica que sim. A primeira nota, de 20 euros, está presa na ponta da cana. O êxtase instala-se e as pessoas vão rapidamente para o centro da rua. Pais colocam os filhos às suas cavalitas e inúmeras mãos erguem-se na tentativa de agarrar o dinheiro. Apesar dos esforços, é John Fisherman que conduz o destino da nota. A primeira vencedora é uma menina.

Segue-se mais alguma conversa e o montante em jogo sobe. Desta vez, será uma nota de 50 euros. Do outro lado da rua, um morador faz-se ouvir. Desvia ligeiramente as atenções e percebe-se que vai trazer um escadote e um apanha-folhas de rede para o centro do espetáculo. Até aqui, não há regras definidas. Parece não haver comportamentos certos ou errados. O coletivo quer ver até onde as pessoas vão.

Projeto estreou em 2018 no festival catalão Fira Tàrrega e já conta com mais de 80 exibições em 20 países

Tal como Sergi Estebanell disse em entrevista: “O espetáculo é simplesmente um espelho da nossa sociedade capitalista porque o que acontece durante a performance reflete o que nós somos”.

A “luta” pela nota torna-se mais aguerrida. Há mais pais a colocar os seus filhos às cavalitas, com alguns de pé nos ombros. O escadote e o apanha-folhas de rede estão a ser utilizados e… há pessoas a abandonar o espetáculo – mais tarde, em conversas, percebi que se sentiram perturbadas com o que testemunhavam. O pescador decide e a nota vai para um menino e o seu pai, argentinos.

Chegados a este ponto, a parada volta a subir: 100 euros. A nota real é exibida pelo pescador de fato amarelo. Ainda mais gente se aproxima, porém o diretor do coletivo Money for Free propõe que se definam regras já que em outras cidades europeias, houve casos de agressão. Sugere que ninguém esteja às cavalitas, que o escadote e o apanha-folhas sejam retirados. Desta forma, o jogo será mais justo e igual para todos.Considera também boa ideia que as próprias pessoas ali presentes definam as regras.

Entre as propostas dos espetadores, surgiu a de doar o dinheiro a uma instituição. A ideia é votada e aceite. Outra proposta acaba por ser aprovada pelo público: apenas pessoas com mobilidade reduzida podem tentar alcançar a nota. O público afasta-se, dando lugar à única pessoa em cadeira de rodas presente.

Uma criança dirige-se ao colega de Sergi e informa que o seu avô usa cadeira de rodas e que vai procurá-lo. As pessoas aceitam esperar pelo avô e votam o tempo de espera: cinco minutos cronometrados. O entusiasmo esmorece. A multidão começa a dispersar. Sergi, um pouco frustrado, não compreende porque as pessoas estão a abandonar, quando elas próprias propuseram e aprovaram a ideia. A democracia estava a funcionar – o interesse, não. O avô acabou por não aparecer e a nota de 100 foi entregue à única participante.

O espetáculo visa promover uma reflexão coletiva e individual sobre o culto do dinheiro (DR: Imaginarius)

O coletivo decide colocar as cartas em cima da mesa. Explica que o que estávamos a assistir era um reflexo da sociedade sufocada pelo sistema capitalista, presa à materialidade das coisas, agarrada ao dinheiro. A escolha do local não foi ingénua e também isso se torna objeto de reflexão: três instituições bancárias rodeiam a intervenção que, na verdade, é uma experiência social incómoda e reveladora.

Sergi e o colega lançam novas perguntas: quem está disposto a fazer um ato de libertação? Quem gostaria de se sentir mais livre destas amarras? Quem gostaria que o dinheiro não existisse? Um grupo de cerca de 30 pessoas levanta as mãos e é convidado a ocupar o centro do espetáculo. Estou lá no meio. Vejo o coletivo a exibir balões e a propor que se ate o dinheiro e que estes sejam libertados no ar.

A proposta ganha outros contornos: quem estaria disposto a cometer um crime, punível com pena de prisão, e queimar dinheiro? Senti vontade de o fazer, abri a carteira, mas tinha apenas moedas. Vi notas de 10 e 20 euros a serem queimadas. Sergi dirigiu uma provocação às autoridades, acenando com a nota queimada, que foi bem acolhida pelo agente policial. Contudo, houve quem se indignasse.

“Eu sou patriota! O que estão a fazer é uma ofensa às autoridades e ao país!”, vociferou um homem, com sinais vincados da idade no rosto. O momento ficou tenso. Ouviram-se os cânticos de “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”, que o próprio senhor também entoou, dizendo que fez parte da Revolução de Abril. A organização do festival interveio, procurando acalmar os ânimos. O espetáculo prosseguiu, com os balões a serem soltos e a desaparecerem no céu com notas atadas.

No final, John Fisherman fez o seu último gesto e largou um maço de notas de 10 euros sobre o público. Muitas pessoas ficaram paradas e viraram costas enquanto o dinheiro caía sobre elas. Para outras, sobretudo os mais novos, foi a corrida final – quase se atropelavam para o agarrar. Agora, as notas eram falsas. O espetáculo acaba como começou – com promessas suspensas no ar, ilusões nas mãos e uma pergunta que, ao longo da performance, foi mostrando os seus contornos: até onde estamos dispostos a ir pelo dinheiro? Belo desfecho. John Fisherman desapareceu, o dinheiro cai e, no meio, ficam as pessoas — a correr atrás de tudo, com as mãos cheias de nada.

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