Pós-Eleições

O mundo capitalista parece estar a implodir e adivinha-se um abrandar tecnológico imposto por regulamentos, leis e pareceres que se atropelam.

No meio deste labirinto jurídico, a guerra comercial obriga a tecnologia a andar em passinhos curtos e desconfiados. E, apesar de tudo, o SNS 24 não vai bem, e a Iniciativa Liberal continua, de alguma forma, a co-habitar com a Escola Pública.

Montenegro veio dormir à casa de Espinho — a que não respeita o Plano da Orla Costeira — e trouxe consigo um certo ar de modernidade. Foi votar com o ID.gov, porque os documentos físicos são coisa do passado.

Entretanto, o capitalista-nacionalista com nome de pato lançou o aviso, e o capitalista-comunista do Oriente respondeu, com ecos pelo mundo. Foi mais ou menos isto: “não entras sem pagar” e, do outro lado, “não sais sem o mundo todo pagar”.

Agora, os documentos que a China publica já não garantem compatibilidade com os softwares americanos que o Ocidente aprendeu a usar como se fossem universais. As exportações estão ao preço do ouro, e o nacionalismo americano parece tropeçar na sua própria bandeira liberal.

Já prever o resultado das eleições autárquicas em Espinho não me pareceu tão elaborado. Entre as duas maiores forças políticas — e uma terceira que soa mais a grito de desespero do que a alternativa — havia três caminhos possíveis. De um lado, votos repartidos; do outro, uma figura que parecia ter o que tem faltado por cá: estratégia e acesso ao poder central.

Esse acesso, claro, não virá sem custos. Haverá de se fazer umas limpezas, para que o Ministério Público não tropece no lixo varrido para debaixo do tapete, nem no cheiro a mofo das infiltrações que persistem no edificado do município.

Do outro lado, tínhamos a versão oposta: políticos locais convencidos de que governar é lançar projetos, sem garantir que algum chegue a ver a luz do dia.

E a vontade de investir em coisas como uma polícia municipal — o que nos valeu o momento mais inesquecível da última Assembleia Municipal: “Senhora presidente, um fetiche é um gosto, e a senhora gosta de fardas”.

Seguiremos, portanto, com menos cultura e menos festarola, imagino. Mas com um gestor ao leme, o que já é um começo. Não diria que é o começo de um final feliz — a certa altura o foco mudará de Espinho para Lisboa, bem sabemos — mas, por agora, deixemos correr. Os dramas do mundo parecem não chegar cá. Mesmo quando o planeta acelera tecnologicamente, nada se reflete por estas bandas.

Por isso, não será o abrandamento, nem a Europa nervosa com a guerra, nem a necessidade de escolher um lado, que há de mudar os próximos quatro anos.