Haverá melhor coisa do que sentir orgulho dos outros?
Por estes dias, tenho dado comigo embrulhada numa série de pensamentos a propósito de coisas que aparentemente não têm relação nenhuma entre si, mas cuja conclusão a que chego, após ruminar em torno deles algumas horas, é sempre a mesma – o sucesso dos que me são queridos é das melhores coisas que me permito sentir! Num livro que por estes dias lia, falava-se da ideia de que ser humano é ser bom por natureza; ou melhor, de que somos bons só pelo facto de sermos humanos. Devo dizer-vos que acredito nisto piamente. Mas depois… a vida acontece. E então… aquilo que nos acontece levanta ventanias, agita areias, muitas vezes resolve-se mal, e acumula-se lixo no fundo do leito da vida. E aquilo por ali vai ficando e contaminando a nossa forma de sentir, de pensar e de estar no mundo, connosco e com os outros. Começamos a reparar que estamos sujos porque, a flutuar no nosso leito, vemos por lá umas folhas e uns ramos. E acreditamos que se os sacudirmos as coisas se resolvem… bem, ficamos sim de cara lavada, mas estamos a ignorar que o lixo está mesmo é lá no fundo. E vamos andando assim porque (livra, nem vale a pena pensar nisso!) mexer e remexer só vai levantar poeira e limpar a sério seria um cabo dos trabalhos.
É de facto hercúleo ter a coragem de ir ao fundo, coar os sedimentos e lavar com águas limpas até ficar tudo filtrado. Poucos têm essa coragem, e menos ainda o conseguem. Mas há coisas que ajudam, e nota-se que se está no caminho certo quando se consegue ver beleza em coisas que acontecem fora da nossa bolha: um amigo que desabrochou numa pessoa tão bonita (nada faria prever tal futuro quando brincavamos juntos na escola); aquele colega que passava sempre à rasca nos testes que hoje tem a sua própria empresa e me mete num bolso em termos de sucesso profissional; uma amiga que é tão bela mãe (imaginá-la assim tão responsável quando eramos adolescentes aos risinhos pelo recreio); aquele que era “de famílias” e que, quando todos acreditavam que iria ser médico, juiz ou político, seguiu a sua vontade e (PAM!) virou artista.
Quando penso nestas coisas sinto uma alegria muito grande. Acredito novamente na Humanidade e sinto-me mais bem sucedida eu própria! Porque termos sucesso também é isto: estar rodeados de pessoas que valem a pena, das quais nos orgulhamos; sermos felizes com as conquistas dos outros.
Perdoem-me se este texto que vos escrevo é demasiado filosófico ou mesmo demasiado abstrato, mas, na verdade, isto é algo muito básico, muito real e muito presente naquilo que é estarmos vivos e vivermos em comunidade. Se conseguirmos superar-nos e deixarmos fora de nós a necessidade de termos tudo, de sermos tudo, a meu ver, é mais simples e eficaz sentirmos alegria, gratidão e serenidade. O sucesso pode mesmo passar por nos desprendermos da ideia de que tudo tem de acontecer e resolver-se somente dentro de nós. Nunca gosto de citar ninguém, mas… “É urgente inventar alegria”, dizia Eugénio de Andrade. E nos dias que correm é mesmo, não é?
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