Um dia destes estava eu no trânsito, a ter paciência à força porque não havia outra alternativa, o sol a afagar-me a bochecha e o braço, a tocar levezinho com maciez, aquecendo como quem acaricia. E dei por mim a descontrair, num daqueles momentos de mindfulness: senti cada nota da canção que tocava, um raio de calor de cada vez, cada sopro da brisa leve que entrava pela janela, cada expiração, cada inspiração… e chegou a inspiração… a outra!
Tinha tido uma ideia boa, daquelas mesmo mesmo muito boas, que tinha de escrever de imediato, sob pena (já sei como sou, memória de peixinho dourado) de desaparecer para sempre. Para riscar, nem lápis, nem esferográfica no porta luvas; papel, nem um talão velho; o telemóvel, na mala atrás… nenhuma forma de escrever.
Fiz as contas: ainda tinha vinte minutos de viagem. Será que ia aguentar a ideia na memória esse tempo todo? Por via das dúvidas, comecei a dizer as frases que queria registar repetitivamente, a ver se as retia com a exatidão que pretendia, palavra a palavra. Depois de umas quatro ou cinco repetições senti-me um pouco ridícula e deu-me alguma vontade de rir. Ainda continuei assim uns cinco minutos, mas depois, sentido a máxima confiança nas minhas capacidades mentais, pensei: “Bom, já chega. Mal chegue a casa vou conseguir lembrar-me de tudo direitinho e, finalmente, escrever.”
Fui então relaxando a memória e abrindo o leque do foco; voltei a reparar nos outros carros, no barulho dos motores, nas árvores que ficavam para trás, nos prédios, casas, caminhos que se cruzavam. Mudei a banda sonora, aproveitei para rever mentalmente as tarefas que ainda me faltava cumprir no dia que quase terminava e, pouco depois, cheguei por fim a casa.
Ao entrar, foi logo um tal arrumar, preparar, adiantar, organizar, jantar, mais isto e aquilo. E as ideias criativas, que tanto sentido fizeram naquele momento no carro, em que nada parecia mais importante do que guardá-las e gravá-las, nunca mais delas me lembrei. Minto: lembrei, quando finalmente estava deitada, descontraída, preparada para adormecer.
“Oh não!” Lá me levantei que nem um foguete, procurei a esferográfica, o lápis, podia até ser um marcador de feltro, não importava, tal a urgência que naquele momento sentia. Quanto ao papel, lá apareceu um de uma receita médica já aviada, todo em branco do lado de trás – exatamente o que eu precisava. Sentei-me na sala, pronta e predisposta para transferir as ditas imperdíveis palavras daquela ideia tão boa, que naquele momento de mindfulness no carro me visitaram. Comecei a escrever, com fervor e urgência.
Já se adivinha o desfecho, não? Logo após o primeiro ponto final, os caracteres que eu finalmente martelava no papel, todas aquelas palavras que haviam soado tão bem na minha imaginação, ali desenhadas naquele papel triste pareciam estranhas, desfiguradas, infiéis à ideia que deveriam representar. Que desilusão… À segunda frase, as recordações já surgiam incompletas, não me lembrava das palavras exatas.
Depois, na tentativa de conseguir deixar a ideia completa no papel (mal ou bem, e depois no dia seguinte, de cabeça fresca, reescrevia e recompunha cada palavra para o seu lugar) fui saltando de umas frases para as outras, registando primeiro aquelas de que me lembrava com exatidão e deixando para o fim o registo em tópicos aquilo de que não me lembrava tão bem.
Contando isto assim, parece que se tratava de um texto enorme… Eram apenas umas quatro frases, não mais! Mas ainda assim, esta frustração. Fiquei a saber o que sente um artista quando tem ideias durante o sono, o banho, ou a meio de uma reunião, seja uma ideia para um desenho, a letra de uma canção ou mesmo a sua melodia, uma escultura ou outra coisa qualquer, e não poder parar tudo e tratar logo de se dedicar a trabalhar no momento exato no qual a inspiração o visitou.
Questiono-me o que teria acontecido se sempre pudesse ter registado, naquela hora, as tais tão imperdíveis palavras. Ter-me-ia sentido bem sucedida? Fica a dúvida; não sou, de todo, artista… e este texto é também apenas um mero rascunho que nada tem a ver com o texto que mentalmente escrevi enquanto esperava ser atendida pela médica de família!
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