O dia em que o horror morreu

Há um momento, quase impercetível, em que deixamos de sentir.

Não acontece de repente. Não há um clarão nem um grito que nos avise. É uma espécie de anestesia lenta. Primeiro vemos as imagens na televisão: prédios rasgados ao meio, ruas cobertas de pó, crianças com os olhos demasiado grandes para a idade. Sentimos um nó no estômago. Dizemos “isto é terrível”.

No dia seguinte voltamos a ver. Já não dói tanto.

Na semana seguinte passa a ser apenas mais uma notícia entre o trânsito, o preço do combustível e o resultado do jogo. A guerra entra na rotina como o tempo nublado: sabemos que está lá, mas aprendemos a viver com ela.
E é nesse momento que algo dentro de nós começa a morrer.

A guerra não mata apenas quem está debaixo das bombas. Mata também quem se habitua a ouvi-las à distância. Mata lentamente a nossa capacidade de indignação, a nossa fome de justiça, a nossa vergonha, a nossa empatia.

Os ecrãs mostram ruínas, mas nós já só vemos píxeis. Mostram crianças, mas nós já só vemos números. Mostram mães a gritar sobre corpos imóveis, mas nós já só ouvimos ruído.
Transformámos o sofrimento humano numa paisagem do quotidiano.

Enquanto isso, há cidades a desaparecer do mapa. Há pessoas a cavar com as mãos nuas para encontrar alguém que respire debaixo do cimento. Há hospitais que se tornam alvos. Há escolas que se tornam crateras.
E o mundo continua a rodar com uma estranha normalidade.

Compramos pão. Respondemos a emails. Discutimos política de café na mão. Rimos. Dormimos. Planeamos férias. E algures, a milhares de quilómetros, alguém enterra o próprio filho embrulhado num lençol porque já não há caixões.

A guerra revela uma verdade incómoda. O ser humano é capaz de se habituar a tudo. Até ao horror.
Os senhores da guerra sabem disso. Contam com isso. Sabem que a indignação tem prazo de validade. Sabem que, passado algum tempo, o mundo se cansa. E quando o mundo se cansa, o silêncio torna-se cúmplice.
Porque a indiferença é a terra mais fértil para a barbárie.

Não são apenas as bombas que destroem cidades. É também a distância confortável de quem decide não olhar. É o gesto simples de mudar de canal, de fazer scroll no telemóvel. É o suspiro resignado que diz “sempre houve guerras”. É a falsa tranquilidade de acreditar que o inferno acontece sempre noutro lugar que não o nosso.

Mas a verdade é mais perturbadora.
Nenhuma guerra começa de repente. Cresce devagar, alimentada por discursos, por medos, por ódios cultivados com paciência. E cresce também no espaço que deixamos vazio quando desistimos de reagir.

A história está cheia de ruínas que começaram com um simples silêncio.
Talvez o maior perigo do nosso tempo não seja apenas a violência dos que disparam, mas o cansaço moral dos que assistem. Porque quando o horror deixa de nos chocar, quando a dor alheia já não nos inquieta, quando conseguimos jantar tranquilamente enquanto cidades inteiras são reduzidas a pó, algo essencial na nossa humanidade começa a apodrecer.

A guerra destrói corpos.
Mas a indiferença destrói consciências.

E talvez seja esse o campo de batalha mais perigoso de todos.

Tópicos