Todos nós, em algum momento, já sentimos o cheiro do poder. Queremos ser vistos, reconhecidos, sentir que contamos, que temos valor, que fazemos diferença. Isso acontece no trabalho, na escola, numa associação, na política, num grupo de amigos, em todo o lado. No fundo, todos queremos sentir que a nossa presença pesa e que aquilo que fazemos deixa marca.
E isso é natural. O problema nunca foi querer ser importante. O problema começa quando essa importância nos sobe à cabeça.
Porque o poder nem sempre aparece com um cargo. Às vezes aparece na atenção que recebemos, na influência que ganhamos, na forma como os outros nos começam a ouvir mais do que antes. E, se não houver cuidado, isso muda-nos. Não de repente, mas aos poucos. Quase sem darmos por isso.
Começamos a ouvir menos. A interromper mais. A achar que vemos melhor, que sabemos mais, que decidimos com mais razão. E aquilo que antes era um espaço de partilha começa a mudar. O que devia ser construção conjunta passa a girar à volta de uma pessoa só. O que devia ser comunidade começa a transformar-se em ego duro.
E isto acontece mais vezes do que gostamos de admitir. Acontece no trabalho, quando alguém sobe e se esquece de como era estar do outro lado. Acontece na escola, quando dentro de um grupo alguém começa a achar que vale mais do que os outros. Acontece em associações, onde o que devia unir passa, tantas vezes, a dividir. Acontece na política, onde o serviço se confunde com estatuto. E acontece até nos sítios mais improváveis, porque o poder não vive só em cargos. Vive no espaço que ocupamos, na forma como influenciamos, no peso que a nossa voz passa a ter.
E é aí que tudo se define.
Porque há uma linha muito ténue entre ter impacto e começar a achar-se mais importante do que os outros. Entre liderar e dominar. Entre servir e querer ser servido. Entre fazer parte de algo e querer ser maior do que esse algo.
No fim, o problema não está no poder. Está na forma como cada um o carrega. Há quem, ao ganhar voz, dê ainda mais espaço aos outros. E há quem, mal se sinta acima, comece logo a diminuir quem está ao seu lado. Há quem use a influência para construir. E há quem a use para se impor e para desvalorizar.
Mas a verdade é simples: no fim, ninguém fica na memória pelos cargos que teve. Ninguém fica verdadeiramente pelo título, pela posição ou pelo lugar que ocupou. O que fica é outra coisa. Fica a forma como tratámos os outros. Fica a forma como fizemos alguém sentir-se ao nosso lado. Fica se demos espaço ou se ocupámos tudo. Fica se aproximámos ou se afastámos. Fica se usámos aquilo que tínhamos para elevar ou apenas para nos destacarmos.
Daqui a muitos anos, quase ninguém se vai lembrar do poder que alguém teve. Mas as pessoas lembram-se, e muito, daquilo que esse poder provocou nelas.
Talvez por isso a pergunta nunca devesse ser “quanto poder tenho?”, mas sim “o que é que o poder está a fazer em mim e nos outros?”
Porque todos queremos sentir importância. Mas há uma diferença muito grande entre querer ser importante e fazer os outros sentirem que também o são.
E, no fim, é isso que fica.
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