“Não basta ter medo, é preciso odiá-los”

O crescimento do fascismo em Portugal não acontece por acaso nem por um súbito despertar ideológico. Acontece num terreno fértil de cansaço, frustração e desencanto. Queremos fugir ao socialismo como se ele fosse a raiz de todos os problemas e acabamos por cair de braços abertos no extremo oposto, onde a mentira deixa de ser exceção, o ódio passa a discurso político e a perseguição substitui o pensamento.

Pedimos autoridade quando, na verdade, desejamos silêncio. Falamos de ordem, mas confundimo-la com obediência. Queremos frases duras, respostas rápidas, culpados bem identificados. A complexidade incomoda-nos. A dúvida parece fraqueza. O fascismo percebe isso e oferece um atalho. Simplifica tudo, aponta o dedo e promete que alguém forte resolverá o que nos parece fora de controlo. Não pede reflexão, pede adesão.

Falamos de imigração como se fosse uma invasão, da diferença como se fosse ameaça. Transferimos para os outros a responsabilidade por problemas que são antigos, estruturais e incómodos. Quando a economia falha ou quando os serviços públicos não respondem, torna-se mais fácil acreditar que a culpa vem sempre de fora, nunca do modelo, nunca das escolhas feitas, nunca de nós enquanto comunidade.

Não dizemos que está tudo na mesma porque nada mudou. Dizemo-lo porque muitas mudanças ficaram aquém das promessas incessantemente adiadas. Houve avanços, sim, mas também desigualdades que persistem e uma distância cada vez maior entre quem decide e quem sente as consequências dessas decisões. Essa sensação de afastamento alimenta a descrença e abre espaço a discursos de rutura total, mesmo quando essa rutura é apenas ruído, espuma sem sentido. 

Neste ambiente de desconfiança permanente, afastamos quem é competente, quem pensa, quem hesita antes de falar. A política torna-se então um lugar agressivo, pouco atraente para quem tem sentido de responsabilidade. Em contrapartida, abrimos brechas a quem vê na política uma oportunidade de se servir, de ganhar visibilidade, poder ou obediência cega. O ódio cria subserviência e esta é terreno fértil para oportunistas.

Dizemos que queremos acabar com os tachos, mas confiamos em quem não apresenta ideias nem soluções. Confundimos agressividade com coragem e frontalidade com capacidade. Atacamos a política em bloco e, nesse vazio, damos palco a quem vive precisamente da sua degradação.

Há também uma certa nostalgia doentia da ditadura. Muitos falam dela sem nunca a terem vivido. Falam de cor, sem memória e sem pudor. Esquecem que grande parte do país viveu sem água canalizada, sem saneamento, sem eletricidade. A escola era curta e para poucos. A saúde era distante e paga. Não havia centros de saúde nem um sistema público que cuidasse de todos.
Os correios eram vigiados com lápis azul, os bancos inacessíveis, a cultura censurada. Livros proibidos, músicas cortadas, ideias silenciadas. Falava-se baixo e desconfiava-se do vizinho. O Estado e a Igreja falavam a uma só voz. 

Questionar era pecado e desvio da doutrina. O país parecia ordeiro, mas era pobre, fechado e atrasado durante o Estado Novo. O fascismo cresce quando a memória falha e quando a frustração encontra respostas simples. Cresce quando deixamos de pensar e aceitamos que pensem por nós.

A democracia é lenta, imperfeita e exige trabalho de todos. O fascismo é rápido, confortável e excludente. Um precisa de cidadãos. O outro contenta-se com seguidores e fiéis. No fim, a escolha não é ideológica. É moral.