Lembro-me da primeira vez que entrei numa redação, em Santa Maria da Feira, e das pessoas que ali estavam. Lembro-me do entusiasmo de ver, pela primeira vez, um texto assinado com o meu nome num jornal impresso. Ou do dia em que recebi o cartão de jornalista estagiário. Durantes semanas, tive o hábito guardar os jornais. Chegado a casa, assinalava as notícias que sabia que tinha escrito e mostrava-as, com embaraço e orgulho, aos meus pais.
Ainda hoje consigo sentir o nervoso miudinho da primeira vez que um texto foi revisto e editado. Ou da primeira entrevista que fiz – e, sem dar por ela, passou a ser três, cinco, dez ou trinta na mesma noite, antes de voltar à redação às nove horas da manhã seguinte.
Ficam também atravessados na memória os aniversários falhados e as tardes e noites de fim de semana entregues a acompanhar eventos e os “protagonistas” da atualidade. Perdi a conta das reuniões de câmara e assembleias municipais a que assisti, dos comunicados que abri, dos áudios transcritos, das pessoas entrevistadas. E também das dores de cabeça – minhas e dos colegas -, e das noites mal dormidas, preocupado com o que ainda faltava fazer.
Foi algures por aí que comecei a perceber os meandros da profissão e o significado de “ossos do ofício”. O stress é constante, os recursos escasseiam a toda a hora e a pressão acumula-se. Há sempre o que fazer. Há mais uma história para contar, mais um evento para cobrir, mais um assunto para tratar e alguém para entrevistar. Falta o contraditório. É preciso editar o texto. E inserir uma legenda. Há sempre isto e aquilo e o aqueloutro. Falta sempre qualquer coisa.
Apesar de tudo, nunca deixei de sentir que o trabalho da redação tinha importância, que impactava e que era lido. Foi essa perceção que me levou a investir e aprofundar conhecimentos, tentar algo novo, arriscar-me num sítio diferente, aprender coisas que pouco ou nada sabia, mas que me fascinavam. Fi-lo e não me arrependo. Se o voltaria a fazer? Não sei.
Se há algo que não me faria hesitar nessa decisão são as pessoas: o Joel de Oliveira, Alyson Santos e Rui Barros. Fizeram-me ver para lá do óbvio. Ajudaram-me a superar e evoluir enquanto profissional e pessoa. Desafiaram-me. Aproximaram-me da ideia que sempre imaginei do que é ser jornalista. A chegada ao Maré Viva, em abril de 2022, trouxe um novo fôlego e renovou a crença de que esta poderia ser uma carreira a longo prazo. Um estágio em jornalismo de dados no jornal Público consolidou essa ideia. A conclusão de um mestrado ainda mais. E assim foi durante quase quatro anos em Espinho.
Mas, a determinada altura, os “ossos do ofício” começam a pesar. Não por estar no Maré Viva, que celebra, a 21 de maio, os seus 50 anos, mas por estar no jornalismo, sobretudo na imprensa regional, onde a precariedade e a estagnação profissional são o cardápio de todos os dias.
Ao fim de sete anos dedicados à profissão, comecei a questionar-me. Teria feito a escolha certa? Será que sou talhado para isto ou não? Devo continuar ou mudar de área? Percebi, há algum tempo, que o orgulho não se pode sobrepor à razão.
Custa dizê-lo, mas é o que sinto: o jornalismo está há demasiado tempo nos cuidados intensivos. É uma profissão morta, ainda que essencial. Creio que a verdadeira felicidade se constrói em conjunto e vou à procura de fazer isso mesmo – noutra área, longe do jornalismo, por enquanto. Fecho esta porta sem saber se é um adeus definitivo. Talvez isso nem importe. Pelo menos, levo comigo a certeza de que a jornada não foi em vão: pelas pessoas que conheci, pelo trabalho que desenvolvi e pelo serviço público que tentei prestar.
Até sempre e continuação de boas leituras.
INFO
ARQUIVO
LOCALIZAÇÃO & CONTACTOS
@ 2026 Maré Viva – Jornal Regional de Espinho
Made by CircleTec.
Para proporcionar as melhores experiências, utilizamos tecnologias como cookies para armazenar e/ou aceder a informações do dispositivo. Ao consentir com estas tecnologias, permite-nos processar dados, como o comportamento de navegação ou ID's exclusivos neste site. O não consentimento ou a sua retirada pode afetar negativamente certos recursos e funcionalidades.