Motivos&Pretextos: Primeiro estranha-se…

O cinema de animação de autor não é para fracos. Não só não é para crianças, como os temas abordados, a estrutura narrativa e o estilo visual são, numa demasiada maioria das vezes, exigentes, no sentido emocional. Há um claro pendor ‘negro’, ou como eu gosto muito de dizer ‘urbano depressivo’ (que se calhar é só depressivo), nas reflexões subjacentes às obras de autor que são apresentadas no CINANIMA que, muito provavelmente, pode ser um dos ‘fossos’ que afasta o público em geral deste certame. 

Prova disso, como paradoxo antipodal, estão os bons exemplos de Prémios do Público do festival, em que o vencedor foi a opção com mais humor, nem sempre o melhor escrito, outras muito fora da caixa, por vezes apenas algo luminoso e otimista, ou simplesmente subversivo, mas de bem com a vida. Mas, estamos a falar de exceções. 

As sessões de premiados do CINANIMA, que historicamente são o momento alto para a comunidade local e regional que, não sendo da área procura esse momento ‘best of’, tipo resumo de sebenta (ou nata da nata) para ficar a par do que valeu a pena em cada edição do festival. Esta conjugação de fatores acarreta uma percentagem de risco enorme, que me surpreende que ainda provoque estranheza em quem gosta de vir assistir aos premiados. 

Com efeito, ao longo dos anos, nos dias seguintes ao fim do CINANIMA, muitos amigos meus comentam comigo: “Eish Gaio, aquilo este ano era uma doença pah!! Tanto filme deprimente!!”, “Carlos, é de mim ou os filmes estão a ficar mais estranhos ano após ano?”, “Já por causa disso este ano nem fui! Já me bastava pensar que tinha de ir trabalhar na segunda feira, para quê ainda ficar pior?”, “Qué que se passa com este povo? Era cada filme mais marado que o anterior” (estas reações são todas de pessoas de Artes e com experiência em irem ao festival, e dizem mais de quem viu do que dos filmes em si mesmo). 

Esta é a magia do festival, e se calhar o problema está em optarem pelo concentrado. Se tivessem ido a mais sessões tinham levado com a coisa diluída com outros exemplos. Normalmente respondo que mais valia terem ido ver a sessão de sexta à noite ou os portugueses de sábado à tarde. “Ah, mas eu gosto é de ver os melhores…”. Pois, mas pode acontecer que os melhores, fruto da sensibilidade dos júris ou do conjunto da colheita desse ano, sejam pesados q.b., o que não é de agora e remonta à génese do festival.

Curioso é perceber como os filmes portugueses, que na sua maioria tendiam a ser alegres ou com humor consensual, estão a começar a ter muito de ‘francês’: isto no sentido em que são objetos iminentemente artísticos, com abordagem muito interiorizada e pessoal, por vezes sem narrativa linear e grande componente de abstração visual. Para mim nunca será um problema e é curioso ver que aquilo que para mim é o paradigma da malta de Belas Artes – ‘negros’ de espírito, deprimidos q.b., de negro até aos ossos (ainda que pontuado com o colorido dos acessórios da GenZ) e ligeiramente alienados; para quem gosta de música pensem em Joy Division, This Mortal Coil, The Cure, TheThe e Nick Cave (nas fases difíceis) – está de volta, em força, com novas linguagens, mas sempre aquela sensibilidade especial que faz bons filmes.

Ainda bem! Exemplo disso são as duas grandes vencedoras do CINANIMA de 2025. Primeiro, Alice Eça Guimarães (que não encaixa naquela arquétipo de BA, e cujos óculos de fundo de garrafa e ar de eterna constipada e meio distraída a fazem parecer sempre que pertence a outro mundo que não o das Artes), que ganhou o prémio do Público e de melhor argumento na competição internacional com “Porque hoje é sábado”, uma reflexão dura sobre a perda de identidade das mulheres enquanto atravessam maternidade, com uma metáfora do ‘eu verdadeiro’ que passou a ficar abafado e deixou de ter espaço e lugar na vida daquela pessoa; o traço era delicado, mas a forma como o filme está construído acentua o dilema da personagem principal, com um desfecho que impacta facilmente qualquer pessoa, fazendo-nos ficar a pensar, sobretudo porque não é exatamente o que parece.

 A vencedora do Grande Prémio, “Cão Sozinho”, Marta Reis Andrade (franzina, frágil e com ar de quem carrega o peso do mundo nos ombros e na alma, claramente é a imagem do estereótipo dos alunos de BA que me lembro de ver preencheram as salas do festival nas década de 80 e 90), trouxe o que parece ser um documentário sobre o seu regresso a Portugal, depois de emigrada para estudar, usando vozes (demasiado) reais (de familiares), para contar uma alegoria sobre um cão que vive sozinho, ao lado da casa do seu avô (que pela sinopse percebemos que ficou viúvo recentemente), artisticamente os cinzentos e pardos tomam conta do ecrã com apontamentos de cor (o vermelho da camisola da protagonista, a realizadora; e o azul da camisola do avô), com traços que curiosamente são muito fiéis à pessoa que os desenhou, e há uma fragilidade geral que sobressai, sem ser óbvia (oscilando entre a dor, a solidão ou o sentir demasiado).

 Merecido, o prémio tem o valor, também, de ir para uma produção do BAP Studio (cooperativa nortenha muito aguerrida), demonstrando que este coletivo é imensamente diversificado, mas artisticamente coerente e que as suas obras acabam todas por fazer sentido, se vistas em conjunto. [Uma nota menos positiva para a tradução que o estúdio fez do título. Em inglês ficou “Dog Alone”, que como qualquer pessoa com os mínimos bem sabe não é a tradução mais adequada, parecendo que o raciocínio foi “olha como se diz cão? E sozinho? Ok, fica assim”. Não só falta cumprir com a regra de que o adjetivo vem primeiro (costumo sempre falar do exemplo com que Goscinny brinca no ‘Astérix nos Bretões”, em que Obélix fica pasmado por a ‘patrulha romana’ passa a ser, do outro lado do canal da Mancha, a ‘romana patrulha’), como faltaria sempre um prenome, sem o que parece ficar a ‘boiar’. 

No meu caso, foi numa sessão de premiados há exatamente 30 anos, em 1995, que fiquei fã a sério do CINANIMA e do cinema de animação de autor. Passou um filme, inteiramente a preto e branco, sobre um amor impossível, com o Porto como pano de fundo, uma banda sonora incrível (Manuel Tentúgal, a dar uma de Wim Mertens com concertina) e um poema belíssimo narrado por uma voz portentosa (Joaquim de Almeida), que me deixou completamente fascinado. 

Ainda hoje, “Estória do Gato e da Lua”, de Pedro Serrazina (com quem vim a ficar amigo por causa do filme e do impacto que essa obra teve em mim) continua a ser um dos meus filmes favoritos de sempre, em qualquer género e categoria, e um bom exemplo que uso para conquistar as pessoas para o cinema de animação de autor. E sim, é BA q.b., é ‘urbano depressivo’, é totalmente artístico e nada óbvio e passados 30 anos continua a funcionar tão bem como da primeira vez, porque na Arte há coisas intemporais e que podiam surgir em qualquer período. 

Ficar a gostar do cinema de animação de autor pode ser fácil, como foi para mim por causa deste filme, ou pode implicar simplesmente fazer como se faz no Verão, perante o Oceano, mergulhar e deixar acontecer. O estranho deixará de o ser e a compreensão dos filmes passará a ser mais intuitiva, ainda que continue a ser perfeitamente legítimo que achemos que certas colheitas são demasiado ‘depré’ ou esquisitas. Mas, com tanto esquisito que vai no mundo, vale a pena mergulharmos nos cinzentos destes poemas em forma animada e deixar que eles nos façam refletir sobre o que é que andamos a fazer neste caminho. 

Pois, no fim das contas, é isso mesmo que é a Arte, que é sempre mais de cada pessoa do público do que quem a criou. E, no fundo, não é de filmes que falamos, é de poemas em imagens, de visões pessoais, de cada artista, sobre as aflições quotidiana ou as grandes questões. Chegará o dia em que a Poesia deixa de ser estranha e passará a ser tida como essencial. Até lá, cada novembro, continuemos todos a ir ao CINANIMA, pois sairemos sempre mais ricos do que entramos, nem que sejam com vontade de mandar vir com a cambada de ‘urbano depressivos’ de BA que estiveram ali a curtir as suas mágoas. Por essas e por outras que é que este ano me juntei a eles e fui de gabardine preta ao festival.