Já muito aqui escrevi sobre a importância de abandonarmos o paradigma de que, para efeitos de história local, o passado que interessa é o longínquo, mormente esse ‘el dorado’ de finais do século XIX e início do século passado… Não compreendo o glamour que tantos vêem nessa época… Talvez seja do tifo, ou do mal viver generalizado que lhes afligia a alma.
A mim aflige-me que fiquemos todos reféns dessa visão. Falta-me a ressonância que os ecos do passado devem trazer. Falta aproveitar a memória coletiva do passado tangível, aquele que é, talvez, recente, mas já tão distante.
Regresso a este desabafo e reflexão a propósito de uma notícia do MV sobre uma moção apresentada pela CDU na assembleia municipal (no final da sessão ordinária de dezembro de 2025). A moção de Fausto Neves tem muito valor e faz todo o sentido como princípio, sobretudo porque reflete uma prática da CDU de procurar que em todas as assembleias municipais os seus elementos promovam a discussão de determinados temas, considerados como fulcrais. Também me parece fazer sentido que, em resultado dessa iniciativa, tinha sido deliberado recomendar formalmente à CME que “a programação festiva futura integre de forma mais consistente a história e as tradições locais e nacionais, numa lógica de identidade cultural e diferenciação do território.”.
A questão é: e agora o que se faz com isto. Como, quando e em quê? Devagar, paulatinamente ou querendo marcar agenda para por o visto na checklist e dar como cumprida a recomendação? Mas, será que esta recomendação se cumpre assim, de uma só penada? Creio que não. Acredito até que permita criar chão fértil para uma abordagem complexa e global.
Mas, vamos à inquietação que esta notícia me provocou. Quem me lê regularmente já antevê (também já fiz spoiler lá em cima). Há uma história local da última metade do século XX que sinto que está desaproveitada e esquecida. Falo da história que emerge do sentir e viver da comunidade, nas ruas, nas lojas, no vestir, noas hábitos de lazer, nos mitos urbanos, nos medos, nas alegrias, nas tendências. É essa convicção que me tem feito ir vasculhar jornais antigos, mas ficar pelo final da década de 70 e pelos 80s790s. De igual modo, que me tem feito interpelar os autores dos Cadernos de Espinho para introduzir mais essa vivência comunal de Espinho e seus territórios na segunda metade do século passado, dando colorido e, sobretudo, trazendo a tão importante (e desejada) ressonância.
A história local é motor de desenvolvimento quando tem ressonância: que pode advir do património arqueológico ou edificado classificado, de factos históricos determinantes ou, simplesmente, de algo muito mais básico comum, o poder regressar a um tempo que já não existe, percorrer espaços da nossa memória e confrontarmo-nos com aquilo que costumava ser naquele tempo que já nem nos lembrávamos, ou que guardamos com tanto carinho, mas que vivemos, com mais o menos consciência (adultos ou crianças).
Esta preocupação tem tanto significado para os ‘Boomers’ (geração que nasceu a seguir a 45 e até meados da década de 60), como para quem foi adolescente ou criança nos anos 80 e 90: muda apenas ligeiramente a década focal, para uns teremos de ir aos 60s, para outros vinte anos depois, e mais uns picos. Falo mais das duas últimas décadas, por as conhecer bem, mas também me fascinam as três anteriores.
Já dei vários exemplos. Muitos ligados ao comércio local. Hoje avanço para outras vivências.
Espinho é estância balnear. Já o era em inícios do século XX. Mas, em plena metade do século XX Espinho ficou conhecido por todo o País, mas sobretudo pela malta do Norte, como a Praia da Bola de Nívea.
Há que dar o devido valor à Bola de Nívea como símbolo do Verão Espinhense e do que é fazer-se praia na cidade.
Vamos mudar ligeiramente o foco, e não olhar apenas para os banhos de início do século. Misturemos as saias compridas e os dilemas de quem lavra os campos e nunca viu o mar, com o plástico, a cultura pop, as barracas coloridas, os gelados da Olá (e outras tantas marcas, com milhentas formas e cores e sabores), a rádio no ar e as memórias de outros Verões e de outras formas de vir a banhos em Espinho, já sem preocupações medicinais, mas com a mesma sede de lazer e o prazer de nada fazer.
E, aí, a Bola de Nívea, ao lado da Bolacha Americana, surgirá. Qual farol. Mostrando que há outros símbolos sobre os quais escrever e pensar. Há muitos Espinhos dentro da nossa história local, e todos se podem misturar e conviver, cada um com as suas cores, o seu viver e sentir… e a ressonância, que ressalta das memórias e das vivências. Tão vibrante como aquele azul escuro brilhante, do plástico da Bola Nívea da Praia da mesma cor.
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