Gosto de mergulhar no arquivo de periódicos da Biblioteca Municipal de Espinho, que está disponível online, e vasculhar números do MV e da Defesa de anos passados. Este ano, o meu presente de natal para os leitores e sobretudo para os da minha geração, é uma viagem por dois anos da década de 80.
1980, a Rua 19 cheia de vida e a premonição do Bacalhau: no MV, entre destaques para as Janeiras da Nascente e política local ao rubro, encontramos uma página especial dedicada ao Bacalhau e, entra caixas com apontamentos enciclopédicos e outras reflexões sobre o dito, encontramos a seguinte provocação que, 45 anos depois, acabou por se tornar aflitivamente real, num ano (2025) em que o preço do dito tem aumentado todos os anos cerca de 75% e já ronda uma média de seis contos (usando preços de 80, hoje 30€), e do mais comum: “(…) um alimento que já foi a comida dos pobres. Um alimento que falta no mercado. (…) E não devem faltar muitos anos para comprarmos o (in)fiel amigo ao preço atual de uma lagosta.”.
Na edição da Defesa, encantei-me com uma fotografia da Rua 19, com as iluminações de Natal, muito diferentes daquele modelo que se tornou paradigma hás uns 30 anos, mas bonitas, com umas silhuetas opacas de pinheiros (imagino que de cor verde), e a Rua 19 com trânsito, carros a cruzar no sentido nascente-poente: ao ver esta imagem reforcei a minha convicção de que a salvação para a moribunda artéria (outrora principal) da cidade passa por uma reformulação profunda com abertura ao trânsito, trazendo a vida que é possível ter, seguindo o exemplo da Rua 23 (que a suplantou, já).
1985, eleições autárquicas e a estátua da vareira: o MV tem mais de especial sobre às eleições autárquicas do domingo anterior, do que de Natal. Tropecei nas palavras de Morais Gaio (o meu Pai) e surpreendi-me ao ler (ouvir) as suas reflexões sobre os resultados eleitorais desse ano – em que ganha Gomes de Almeida e o PSD, com uma “vertiginosa” queda do PS -; retive um texto sobre propaganda eleitoral e a “imagem da competência” que achei curioso inclusive por 2025 ter sido recentemente palco de eleições para os mesmos órgãos com resultado semelhante: “Ligada a este primado da imagem e remetidas que foram as ações porta a porta para um lugar discreto, aparece unânime a ideia da competência. Parece que aliada ao carisma dos ‘cabeças-de-lista’, é necessário a garantia de uma atuação eficiente. Ficamos sem saber quais os domínios em que os políticos cá do sítio eram mestres, (…). Mas, ganhamos uma certeza indubitável, vivemos no reino fértil da competência.”).
A grande surpresa, contudo, é na Defesa dessa semana, uma caixa sobre a estátua da Varina da Fábrica «Brandão Gomes», que hoje está em frente ao Museu Municipal (que conserva também um molde em gesso da mesma). Insurgindo-se o texto contra o facto de a importante estátua estar perdida entre ruínas, a certa altura refere que anos antes um autarca sugeriu a colocação da estátua na rotunda da Câmara, rematando o autor que não seria boa solução e que devia era ser restaurada. Pode ficar tranquilo que já aconteceu.
Só que, entretanto, alguém lembrou-se de fazer outra réplica deste símbolo e, ao invés de lançar um concurso artístico para uma escultura que o dignificasse, achou boa ideia optar por uma imitação pobre em qualidade e criatividade e plena de plástico e falta de imaginação, colocada num sítio inusitado, de costas para o mar e a ver os carros passar. Fico eu pasmado, também, com o visionário autarca que, já antes de 1980, a queria por no mesmo sítio em que, anos depois, aterrou um barco…
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