Continuando o mergulho no passado da imprensa local, que começou no meu texto publicado na edição de 10/12/2025 do Maré Viva, em jeito de presente de natal para os leitores, especialmente os da minha geração (nasci em 1980), tentarei trazer um pouco mais de colorido sobre a cidade de outros tempos, temperada com as o espírito (e preocupações) desta época.
1982 e os brinquedos na montra da Havanesa: A foto que engalana a primeira página do MV de 23/12/1982 é especial para quem como eu cresceu em Espinho nos anos 80 pois tem aquele peitoril tão característico da montra do Bazar Havanesa na Rua 19 (mesmo lado da Aipal, para baixo, quem desce). Tantas vezes me apoiei naquela pedra a olhar espantado aquele monte de brinquedos que queria ter e sonhava comprar ou receber (nos anos ou Natal).
(Acho que nunca falei disto com ninguém, mas sonho recorrentemente com esta montra.)
Eu em 1982 ainda não andava e não tinha muito discernimento para estas coisas, pelo que não faço ideia do
que estaria na montra nesse ano (se me perguntarem sobre a montra em 1987, talvez consiga falar sobre, pelo menos uma parte do que veio a aparecer depois no sapatinho desse ano… noutra altura, talvez!).
Apesar de ser a preto e branco, dá para perceber os contornos daquele brinquedo a que será dado destaque nas páginas interiores do MV, no desenvolvimento dessa notícia que anunciava brinquedos “caros
e sofisticados”, com testemunhos do Sr. Álvaro do Bazar e fala mais de política e economia do que de brinquedos propriamente ditos (naturalmente, terá sido escrita por algum dos colaboradores jovens do jornal daquele ano, de certeza sem filhos a quem oferecer brinquedos e já longe das aventuras de infância), dá para ver ali na montra a Estação de Serviço Galp, esse pináculo dos brinquedos da primeira metade da década de 80 do século XX em Portugal, que mais não era que uma estrutura de plástico com plataformas elevatórias, onde se podiam por aquelas miniaturas de carrinhos de brincar (que na altura se vendiam vulgarmente em todas as lojas).
Nunca a tive, mas conheci quem tivesse, e também nunca sofri por ela, porque nunca liguei muito a
carrinhos de brincar (embora tivesse vários). Na notícia fala-se também do Estádio da Sucol, que já me ultrapassa totalmente, mas imagino que tivesse figuras de jogadores de futebol. Na Defesa encontramos uma belíssima fotografia da Rua 19 (com carros!! Que maravilha!!) e com umas iluminações de Natal, com figuras do Presépio, que mesmo na fotografia sem cor têm um brilho e encanto especial. Gostava de passear nesta Rua 19 de Natal de 1982. Também na Defesa, nessa mesma página, temos um conjunto de sugestões de presentes natalícios: nos livros temos grande destaque para esse enorme clássico “Cem Anos de Solidão” de Gabriel Garcia Márquez que nesse ano tinha ganho o Nobel, e para “Balada da Praia dos Cães” de José Cardoso Pires, nos discos acho curioso que a Defesa tenha incluído o “Por este Rio Acima” de Fausto.
1987 e o Rock Espinhense: No especial de Natal de 18/12/1987 da Defesa de Espinho, tropeço numa fotografia de 5 ‘janotas’ a agarrar um disco, e descubro ali o meu grande amigo Mário Cálix (também conhecido como Cales), com uma poupa, blusão e calças subidas à psichobilly. É uma entrevista aos Fiat Lux, apresentado como o grande conjunto do Rock Espinhense, formado no início desse ano e que
havia lançado o primeiro single (no Lado A, Leonor, musicando um poema de Camões, no Lado B a banda sonora do CINANIMA87). Naturalmente os ‘rockeiros’ locais subverteram tudo e entraram por ondas ‘nonsense’: “- O nome do grupo tem alguma coisa a ver com automóveis? – Nem com automóveis, nem com sabonetes, embora já nos tivessem chamado «carros ensaboados»…” (numa alusão ao sabonete
Lux e à marca italiana de viaturas).
Fico a pensar que foi graças a bandas de garagem como esta, que uns anos mais tarde, já nos 90s, vi alguns concertos que me marcaram e descobri alguns clássicos (Obrigado ‘Filhos de uma Virgem Descalça’,
também com o Mário no grupo), e que talvez Espinho esteja a precisa de voltar a ter bandas de garagem para dar música à cidade ou, pelo menos, de palcos (como o Festival Tucátulá, na segunda parte dos 00s) que permitam dar-lhes voz.
1995, as lojas desaparecidas, a ameaça das grandes superfícies e o meu pai a ser o meu pai: No Maré Viva de 21/12/1995, encontramos uma excelente reportagem sobre três mercearias que o tempo entretanto já levou: Alves Ribeiro, na Rua 19, Andrade, Rua 16 com a 25, e a do Sr. Albino na Rua 22, entre a 19 e a 15.
Percebemos as angústias do Sr. Álvaro do Havanesa com os preços competitivos dos hipermercados e do Toys’r’Us de Gaia (que abrira anos antes), anunciando já o fim da loja em inícios dos 00s. Descobrimos, por viva voz, as tradições de Natal e alguns segredos culinários da família que geria a Casa Marques, um icónico restaurante que fazia as preferências de tantos Espinhenses de meados dos anos 80 a finais dos anos
90 (e lá está uma referência a essa sobremesa super natalícia, as Natas do Céu, que a casa as faziam tão diferentes e tão especiais).
Pelo meio, está uma peça de não sei quantas páginas sobre o Natal em Espinho de há 50 anos atrás, em 1945, escrito pelo meu pai a partir de uma recolha pessoal nos números da Defesa de Espinho daquela
altura disponíveis na Biblioteca. Já sabem o que estou a pensar: acabei por fazer o mesmo, mas acreditem que foi coincidência, mais por curiosidade do que por exercício de reconstrução histórica (o meu pai nasceu em 1954); de qualquer modo, há naquele texto, que recomendo, muito do que viria a ser a forma de escrever e ver o passado, que o meu pai, Carlos Morais Gaio (então diretor do MV e responsável pelos especiais de Natal todos ‘especiais’) imprimiria, quatro anos mais tarde ao seu livro (“A Génese de Espinho – Histórias e Postais).
Este Natal trouxe-vos surpresas de quem viaja no tempo. Para o ano, trago-vos as
minhas memórias de Natal. Ou alguma tentativa… falhada, por certo. Feliz Natal e que
2026 vos seja generoso.
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