Motivos&Pretextos: Espinho, 1996. TPE, etc.&Tudo!

Espinho, 8 de março de 1996.
José Mota é presidente da câmara municipal. Vai nascer o Multimeios, no meio da cidade, como anuncia o concurso agora lançado. A assembleia municipal aprovou uma recomendação para o executivo fiscalizar obras ilegais e ordenar demolições. A CME tinha uma sala de exposições em plena Rua 19, em frente aos correios, que servia para dar ‘voz’ a artistas jovens e muitas outras coisas interessantes.
A sul da Rua 29, as ruas eram vazias, não havia grande comércio para aqueles lados, poucos carros passavam.
É sexta-feira à noite.
No São Pedro está o “Se7en”, de David Fincher, que ficará mais uma semana. A SPINUS ainda existe e João Nuno aquece as noites com hits de dance music como ‘Push the Feeling On’, ‘So in love with you’ e o recém-chegado ‘Children’. Os professores ainda levam os alunos a visitas de estudo para irem ao teatro à noite.
No 1200 da Rua 16, no Auditório da Nascente, ouve-se Pearl Jam e, quando der a ‘Black’, o espetáculo está para começar.
Nesse dia, o Teatro Popular de Espinho (TPE) estreia ‘Almada, Etc. & Tudo!’, uma criação e encenação de António Paiva a partir da obra visual e escrita de Almada Negreiros, que representa uma reviravolta no percurso TPE e o início de uma época de renascença do grupo de teatro amador espinhense.
O palco enche-se com a energia de um bando, desirmanado, de adolescentes que entra para o grupo no outono do ano anterior. O TPE, que ainda há coisa de dois anos só tinha uma mão cheia de elementos no ativo e nenhum jovem, vê o seu coletivo de atores crescer exponencialmente e renascer criativamente com essa geração de jovens, de diferentes freguesias do concelho, viria a marcar o futuro do grupo e garantir a sua continuidade. 
Ao mesmo tempo, todo o estilo cénico do ‘Almada’, com cenas soltas a partir de uma recolha de textos, uma banda sonora invulgar e chamativa, figurinos pouco realistas e um cenário minimal, que seria reaproveitado em muitos projetos futuros do grupo, acabará por tornar-se uma imagem de marca do TPE. 
Mas, principalmente, foi um sucesso de público que encontra poucos paralelos no concelho e na cena amadora do distrito, com uma vida em palco demasiado longa (em 98 ainda andávamos na estrada) para que é comum em termos de projetos de grupos de amador e que, ainda hoje, é inigualável na história do TPE: num total de quase 20 espetáculos, cerca de metade dos quais em Espinho e os outros todos pelo Centro e Norte do País, tendo até chegado ao Alentejo.
A Mariana, a Ana Elsa, a Joana Marta, a Sara, a Marlene, a Carolina, a Cristina, a Paula e este que vos escreve – mais o Tiago, o Fábian e o Rogério, na luz e som -, todos eles entre os 13 e os 17, mais o Jorge que vinha do Porto, juntaram-se ao Paiva, à Hermínia e ao Vítor – estes nos 40s – e viveram esta aventura que se prolongou no tempo e que nos levou a tanto lado (no furgão do Vítor) e, juntos, lançaram as raízes para muito do que o TPE foi nas duas décadas seguintes.
Pouco me recordo do período de ensaios e, hoje, fico com a sensação de que tudo começou neste dia de estreia.
Já sabemos a importância deste espetáculo para o TPE e para a Nascente. Para mim, o ‘Almada’ foi fundamental pelos laços de amizade e companheirismo que fiz por causa deste projeto, que ainda hoje perduram.
Não se trata de saudosismo. O ‘Almada’ faz 30 anos e esta malta está de Parabéns e merece ser lembrada.
PS – Por causa da estreia e dos espetáculos na semana seguinte, não consegui ver o ‘Se7en’ no cinema, contrariamente a quase todos os meus amigos. E disso não me esqueço…