Meteorologia não Costa

Vejo a meteorologia todos os dias, há mais de uma década. Mas nunca deixo a chave do carro ou os óculos no mesmo lugar e nunca os encontro. Perco as chaves de casa ou deixo-as do lado de dentro com uma certa periodicidade. Mas a meteorologia não falha. Depois escolho o casaco e os sapatos mais adequados ou garanto sombra e fresco nos dias de sol, durante metade do ano. A escolha do casaco é especialmente importante e tenho-os de todas as espessuras. O casaco e os sapatos são a minha segurança para a imprevisibilidade do meu dia, causada por um cérebro cáustico.

Junto à fotografia, aqui no jornal, aparece a minha formação base. Na verdade, o que me paga o salário é a capacidade de resolver imprevistos. Treinei essa habilidade desde que me conheço e, hoje em dia, faço disso vida. Abrir portas com radiografias é uma realidade. Recuperar, vários dias depois, um telemóvel deixado num riad em Marraquexe onde paguei dez euros pela noite, também. Um dia convenci um lojista de que o meu cartão de cidadão tinha o número errado para resolver um problema.

Este talento é coisa que se vê em Portugal com uma elevada frequência. Não sei bem o que nos faz assim. Varia com a tolerância de cada um ao risco e ao caos, mas é muito apreciada — e apreciável — neste país. Um alemão não transgride regras, um italiano não tem regras, um português contorna-as com mestria.

Isto leva-me às últimas notícias do município. Já viram a mestria com que foi comunicado que teremos uma quantidade absurda de prédios contra o Plano da Orla Costeira? Diz-se que agora os “limites urbanísticos” estão definidos e isso reforça a confiança dos investidores. E lê-se que todos os pobres coitados que ali comprarão casa terão de fazer manutenção à fachada em meia dúzia de anos e ficar com o património desvalorizado em meio século.

O mais fascinante é que, visto de fora, até parece que estamos todos muito tranquilos. Tal como eu transpareço sempre uma falsa tranquilidade. Os comunicados saem arrumadinhos, com verbos no futuro e palavras que ficam bem em apresentações: “reforçar a confiança”, “atrair investimento”, “dinamizar a frente marítima”. É uma espécie de meteorologia institucional: garantem céu limpo para daqui a vinte anos quando, na prática, já toda a gente percebeu que não é assim que funciona. Mas, tal como eu com as chaves, também eles acham sempre que “logo se vê”.