Deixem-me contar-vos sobre um Tigre, um Benjamim e sobre um feriado que é (do) povo. Sobre um feriado que me deixou com (ainda mais) certeza de que é na cultura e na educação que está o futuro da liberdade.
A vinte e cinco de abril de 2026, na sessão solene de comemoração parlamentar, o poder central mostrou-se datado nos formalismos e pouco ou nada coeso quanto ao que Abril representa para a democracia e para a Constituição. O nosso conterrâneo (que, por acaso, é também o atual primeiro-ministro) apresentou-se na cerimónia de azul, acompanhado pela mulher vestida de preto. Digam-me que não se trata de uma passadeira vermelha e eu digo-vos que a assessoria serve precisamente para estas coisas.
O seu colega anti-Constituição chegou envergando, orgulhosa e simbolicamente, um cravo verde — já por si um exercício criativo — e apresentou um discurso desconexo, cheiinho de chavões, sem dados que sustentassem uma única tese, utilizando tudo isto da mesma forma que um Bolsonaro ou um Trump aquando das suas campanhas eleitorais. Do Parlamento para o Município, não houve grandes diferenças: pouco entusiasmo, escassa atenção à data, comunicação tímida, quase inexistente, e uma surpreendente falta de vontade de contar a quem está a chegar o quão importante é podermos escrever, dizer, ser, estar e ir como, quando e onde quisermos.
Houve meia-dúzia de formalismos apenas. Mas depois, se olharmos com um bocadinho mais de atenção (e talvez com menos redes sociais), percebemos que, nos lugares onde a cultura é feita por pessoas para a cidade, aconteceram coisas muito mais vivas, muito mais atuais e, sobretudo, muito mais pertinentes.
O TPE apresentou, uma vez mais, a peça “Há um Tigre no Prédio”, a partir da obra de Mário de Carvalho. Um espetáculo exigente, com os atores sempre em palco durante mais de uma hora. Quiseram contar-nos, no somatório das suas horas livres e da sua dedicação, como é que um discurso totalitário ganha dimensão. Como é que nos conseguem fazer acreditar que um cravo pode deixar de ser bonito com o mesmo carisma com que nos convencem de que há um tigre num prédio — num qualquer, longe de qualquer lugar com tigres — que entrou por uma janela de vidros partidos, como se isso fosse lógico.
E contam-no com humor, com personagens distintas, reconhecíveis, assustadoramente próximas de nós. Personagens que, pouco a pouco, transformam o medo em aceitação. Uma aceitação tão confortável que já admite sacrifícios de alguém sem grande problema aparente (quase bíblico, sem a poesia).
A peça ousa dizer, ironicamente, que “o vinte e cinco de abril fodeu isto tudo”. É ousado, é absurdo — e, ainda assim, não muito diferente do discurso do senhor do cravo verde.
Tudo isto aconteceu no Auditório Nascente, seguido de canções que nos lembram de como, no meio da repressão, das comunicações controladas e da arte corrompida, adulterada e censurada, ainda assim se criou. É muito bonito ver dezenas de pessoas a cantarem em uníssono. Mais bonito só o que se fez no outro Auditório da cidade, o Auditório de Espinho.
O Projeto Benjamim trouxe os alunos da Academia a palco com uma artista portuguesa, de pele negra, a cantar Zeca Afonso e a falar de liberdade. Assim, simples — e profundamente transformador.
Saio sempre feliz deste Auditório. Há qualidade artística, rigor técnico e uma consistência de programação que é, francamente, de cidade grande. Mas desta vez saí com mais do que isso. Saí com a certeza absoluta de que todos os alunos que estiveram naquele palco levaram dali liberdade. Liberdade de ser. Liberdade de criar. Liberdade de sentir.
Talvez se contem pelos dedos aqueles que não se emocionaram. A artista, Selma Uamusse, começou por cantar “Bairro Negro” e levou a plateia ao essencial: onde não há pão. Falou sobre ser imigrante — sem dramatismo, sem excesso, mas com presença. Não só falou de liberdade, como fez o público saber que é livre e, durante aquele espetáculo, sentir-se livre. Nos auditórios da cidade contou-se, cantou-se, sentiu-se e, acima de tudo, educou-se sobre a liberdade que Abril representa. As pessoas — o povo, não quem elegemos — souberam ser a liberdade de e para 2026.
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