Há um Tigre no Prédio

Não sou uma boa dona de casa. Pronto, já disse. Aos dois anos, uma das minhas filhas deixou isso claro: “a comida do meu papá é melhor”, disse ela. Não protesto, ainda que as batatas a murro não estivessem nada de se desperdiçar. O meu esforço gastronómico foca-se em doces — e até esse já viu dias mais pródigos.

Também não passo o meu tempo livre a deixar tudo num brinco. Canso-me só de pensar em tirar o aspirador do armário. Os vidros de minha casa estão como aqueles carros onde dá para escrever e, se não fosse terem inventado um robô que faz a proeza de mudar o destino, seriam limpos uma vez por ano.
Por isso, para além da manutenção essencial à existência, pago parte do dinheiro que ganho — a fazer coisas que me divertem bem mais do que líquidos e panos coloridos — para que alguém nos mantenha a salubridade de vez em quando. E, ao mesmo tempo que odeio ter alguém a tocar-me nas coisas, e odeio ter de dar ordens a alguém que o faça, preciso.

Dou a volta ao assunto criando uma relação com a pessoa que cá vem. Explico que ela saberá melhor do que eu o que é necessário fazer e a melhor forma de o fazer. Se isto funciona bem? Não. Passo tempo que devia dedicar ao trabalho que me paga as contas nessa relação e acabo, muitas vezes, a achar que o resultado final está errado.

Foi numa dessas conversas, ali entre panos, tarefas domésticas e a intimidade involuntária que estas relações criam, que percebi que caminhávamos inevitavelmente para a política. Pus o dedo na ferida. Respirei fundo. Falei sobre o papel da mulher numa política conservadora e recebi em troca sonhos desinformados. Tinha perante mim uma mulher muito competente no seu trabalho, financeiramente independente, a dizer-me que talvez fosse de conservadorismo que o país precisasse.

Respirei outra vez. Falei devagar e com empatia sobre o ciclo da história. Não fui particularmente bem recebida e acabámos por concordar em discordar.

Saí da conversa a pensar que precisamos urgentemente de duas coisas: uma educação mais eficiente e uma cultura capaz de combater a desinformação e os sonhos infantis de que todos somos capazes — vidas fartas, riquezas alheias, soluções fáceis para problemas difíceis. Não é lógico que o consigamos, mas a lógica vem da matemática e todos sabemos como esta nem sempre é bem recebida. Talvez seja por isso que se ouvem certas coisas com tanta facilidade. A par disto, ouvi dizer que há um Tigre no Prédio.

Qual prédio e qual tigre? Não sei dizer. Mas ouvi. Como se ouve dizer que a imigração prejudica o país. Se a estatística não acompanha, vá-se lá saber. De onde sairia o tigre para se alojar no prédio? Onde é que estão esses imigrantes que ganham sem trabalhar?

A verdade é que ainda vamos ouvir bastante sobre esse tal Tigre. Vai discutir-se se é plausível, se é real, se já alguém o viu. E, no meio desse debate, o mais estranho não é a existência do Tigre: é a disponibilidade para o aceitar como hipótese. Como se, cansados de tanto discutir o assunto, alguns de nós resolvessem experimentar o tal do Tigre. Não por convicção, não por coragem, mas por exaustão. Como se o absurdo, repetido vezes suficientes, ganhasse direito de entrada no prédio.

Em abril, o Teatro Popular de Espinho contará essa história. Até lá, duvidem.

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