Fazer do óbvio um brilharete

Hoje cumpre-se uma semana daquela que foi a sessão de Assembleia Municipal mais insólita a que assisti. Ao longo de quase cinco anos de profissão, já cobri várias reuniões de câmara, assembleias de freguesia e assembleias municipais, sobretudo em Santa Maria da Feira e em Espinho, e perdi a conta às vezes em que os “eleitos” atropelam o respeito democrático ou tentam reescrever uma realidade que não corresponde aos factos. “Faz parte”, dirão. No fim do dia, “é tudo política”. Contudo, o que se passou a 16 de julho, no Centro Multimeios, foi outra coisa: um espetáculo político montado para desabar em cima dos próprios autores. Verdadeiramente inédito.

Imagine-se a reabilitar uma casa. Investe tempo, dinheiro e materiais. Depois de a obra estar concluída, decide apontar todos os defeitos do que fez e conclui que, afinal, a casa estava melhor como estava: sem teto, com fendas, prestes a ruir. Foi mais ou menos isso que a bancada do PS fez na passada quarta-feira. O relato jornalístico do que ali se passou pode ser lido no nosso site, e as conclusões cabem aos (e)leitores. Mas o episódio dá que pensar.

Como é que um partido tão fragilizado – a nível local e nacional – se permite fazer intervenções como aquelas? Como se critica o “marketing político” quando usam uma Assembleia Municipal para fazer precisamente o mesmo?

Enquanto ouvia o desplante do PS, perguntava-me se estaria a escutar o mesmo discurso que o resto da audiência. “Terão trocados os papéis e, por engano, estão a ler as diretrizes da pré-campanha?”, pensei. Foi então que Paulo Leite, do PSD, fez a intervenção lúcida da noite e isso, de alguma forma, tranquilizou-me. Afinal, não era o único a ouvir aquilo e, assim, o PSD conseguiu fazer do óbvio um brilharete.

Assistimos, em primeira mão, a uma autocrítica do PS, só que com um detalhe: os socialistas parecem convencidos de que as críticas disparadas não resvalam, como se todas se cravassem exclusivamente na presidente da Câmara – e eles, de colete à prova de bala, permanecessem imunes. Houve até quem quisesse clarificar tudo isto, dizendo que “a Câmara não é do PS”; a mesma pessoa que, tantas vezes, recorda ao PSD a “estrondosa derrota” nas últimas eleições autárquicas. A piada faz-se sozinha.

Dito isto, é importante não confundir opinião com factos. E, aproveitando o balanço final da discussão política da última Assembleia Municipal, o Maré Viva lança hoje, em exclusivo no seu website, um artigo que vai ao encontro da pergunta que ficou a pairar: será que o prometido está a ser cumprido?

Ao longo dos últimos meses, analisámos as 190 medidas do programa eleitoral do PS em 2021. Compilámo-las, organizámo-las, atribuímos-lhes uma classificação. Em maio deste ano, remetemos a avaliação das medidas à Câmara Municipal de Espinho, para que se pudesse pronunciar. Até hoje, não obtivemos resposta. E mais de metade das propostas socialistas continuam por cumprir.

O artigo é interativo. O leitor pode descobrir, por si próprio, o que foi feito, o que está em curso, o que ainda não começou e o que ficará por fazer. Fica também o convite à participação: caso detetem alguma imprecisão, podem enviar um e-mail ou preencher o formulário disponível no final do artigo.

Para quem dizia que não havia concorrência no espaço digital, fica agora provado que também o Maré Viva consegue fazer do óbvio um brilharete.