Em cada ciclo legislativo, assistimos ao mesmo espetáculo. Um desfile de frases feitas, indignações fabricadas e promessas tão recicladas quanto vazias. O conteúdo? Escasso. A substância? Rara. Mas há sempre espaço para o insulto disfarçado de argumento e para o papão da vez: ora a SPINUMVIVA, ora a imigração, ora mais recentemente a TROIKA. No meio deste ruído e mentiras, dois pilares fundamentais para o futuro do país — educação e cultura — continuam a ser ignorados, tratados como notas de rodapé num guião de má comédia.
Os que ocupam o palco preferem temas que rendem manchetes rápidas ou “gostos” colecionáveis nas redes sociais. Falar de cultura? Isso exige visão. Falar de educação? Isso leva tempo. Pior, nenhum dos dois dá votos imediatos. E num sistema obcecado com resultados a prazo, isso parece ser heresia.
Enquanto se gritam slogans como “Vamos investir nas pessoas” ou “Resolveremos isto em três dias”, falta sempre o essencial: quem são essas pessoas mesmo? Onde estão os planos concretos para formar cidadãos críticos, ativos e criadores de futuro? O silêncio responde por todos. Investir em educação é apostar a longo prazo. Valorizar a cultura implica desconforto, reflexão, confronto de ideias. E isso não encaixa bem num reel de 30 segundos.
O País tornou-se especialista em viver aos soluços. Governa- se com pressa, debate-se com pressa, promete-se com pressa. Tudo é urgente, nada é importante. E assim adiamos o que mais importa: construir uma sociedade onde pensar, criar e aprender deixem de ser vistos como luxos ou excentricidades.
O mais curioso, ou talvez o mais trágico, é que todas as grandes questões do País passam, direta ou indiretamente, pela educação e pela cultura. Um povo educado participa, exige, entende. Uma sociedade com cultura é mais coesa, mais tolerante, mais difícil de manipular. Mas isso não cabe num grito de protesto nem numa frase de efeito.
Está na hora de fazer perguntas incómodas. O que se vai fazer pela educação, de verdade? Que propostas existem para garantir o acesso à cultura em todo o território? Como se vai apoiar quem ensina e quem cria? E, acima de tudo, porque é que se fala tão pouco disto? É falta de conhecimento… ou simples medo?
A verdade é que este silêncio diz muito. Pensar, questionar, sair da bolha — tudo isso assusta. E a política, como está montada, vive bem dentro dessa bolha. Alimenta-se do ruído, da divisão, da crítica fácil, da polaridade. E a educação e a cultura, como bem sabemos, são más companhias para a ignorância.
Talvez por isso tenham ficado de fora. Ou talvez, ironicamente, se tenha mesmo esquecido o que significam. Porque sem cultura e sem educação… o que sobra?
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