É Verão, caro primeiro-ministro. A aposta exacerbada no Turismo faz de Portugal o destino de eleição para milhares de pessoas de todo o Mundo. Mas sabe o que se esconde por detrás dos resplandecentes areais, dos mergulhos refrescantes nos cursos de água, das ruidosas festas populares e das paisagens que continuam a surpreender até quem por cá vive há anos? Um Interior esquecido, abandonado à sua sorte e entregue ao vento que sopra cada vez que um incêndio deflagra.
Depois de 25 dias consecutivos com Portugal a revisitar o cenário dantesco das chamas a cercar aldeias, povoações, a destruir casas e a ceifar vidas, o seu silêncio ensurdecedor e o da ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, é difícil de compreender. Durante este período, quase não se encontram palavras suas sobre os incêndios, nem perante a comunicação social, nem num comunicado oficial ao país.
Terá sido por obra (ou telefonema) do Presidente da República que percebeu que não estava a tomar a melhor postura quando era fotografado nas praias, a mergulhar, enquanto populares apagavam fogos com os seus próprios meios? Marcelo Rebelo de Sousa é o seu conselheiro político? Se for, convém repensar a escolha. A postura do Presidente da República, tal como a sua, não tem sido exemplar e, como bem sabe, estamos perto das eleições presidenciais. Quando Marcelo Rebelo de Sousa sair de Belém, quem falará por si?
Deixo-lhe outro conselho: quando se aproximar desta altura do ano, treine uma expressão séria. Largue esse sorriso tímido, porque, ao contrário do que possa imaginar ou do que os seus assessores lhe digam, não transmite tranquilidade nem confiança. Existem pessoas acordadas há dias a lutar para que as chamas não lhes roubem a vida, a habitação, os animais ou as plantações. Sem nunca ter estado na pele destas pessoas, garanto-lhe que esse sorriso não lhes acalma os nervos.
Se também acredita que prorrogar sucessivamente a situação de alerta é uma forma de agir e de comunicar sem dizer nada, talvez devesse repensar o cargo que ocupa.
Se acha isto desmedido, permita-me que lhe diga que ainda mais desmedido foi ter ido à Festa do Pontal quando mais de 3.000 operacionais (a maioria voluntários) combatiam incêndios sem meios aéreos suficientes, em cenários que ameaçavam casas, pessoas e os seus sustentos.
O que lhe passou pela cabeça? Aparecer sorridente, com pompa e circunstância, tal e qual um rei de feira medieval, achando que ninguém iria reparar? Acha “normal” estar numa festa do partido que preside enquanto Hugo Soares Dias se deixa fotografar a beber gins, acende mais um cigarro, segreda ao ouvido de António Leitão Amaro, ambos se riem e, ao mesmo tempo, há aldeias cercadas pelo fogo, onde ninguém entra nem sai? “Estavam de férias”, dirá.
Mas há algo que nunca entrou de férias: o abandono a que o Interior está condenado. Há terrenos por limpar porque não há quem os trabalhe. As aldeias esvaziam-se por falta de políticas e incentivos que ajudem os jovens a fixar as suas vidas fora das grandes cidades. As comunidades (e até algumas autarquias) estão entregues à sua sorte.
E, desse vazio, emerge o perfil dos incendiários: pessoas isoladas que vivem no Interior, muitas vezes marcadas pelo alcoolismo e por perturbações mentais, sem acompanhamento ou respostas sociais suficientes. Face ao número de detenções pelo crime de incêndio florestal (só este ano foram 42), entende-se que não são casos isolados. São o reflexo de um país que teima em fechar os olhos ao Interior até que o fumo lhe bata à porta.
Por último, caro primeiro-ministro, pergunto-lhe: está convencido de que os portugueses estão consigo por ter saído reforçado de um ato eleitoral?
Vou parar. Lamento que tudo isto não passe de um monólogo. Pode ser revelador de um excesso da minha parte, mas é ainda mais revelador da falta de noção e do amadorismo político do governo que Luís Montenegro preside.
Onde há fumo, há fogo, e o que lavra hoje não é apenas o que consome hectares de floresta. Esse é o fogo que arde e que se vê, mas também há o que se alastra lentamente na confiança dos cidadãos nas instituições e em quem as lidera.
Retomo o monólogo só para lhe dizer, caro primeiro-ministro, que pode atirar a água que quiser para cima das chamas. O que não pode esperar é que alguém apague por si o fogo da descrença.
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