Não sabemos o que andamos cá a fazer e qual é o nosso propósito, mas passamos a vida toda a cismar nisso.
Trabalhamos de forma empenhada, com uma entrega desmedida, acreditando que é importante acrescentarmos algo novo todos os dias e fazer a diferença, a médio ou longo prazo, na vida dos outros e até mesmo na sociedade.
Queremos ser diferentes, fazer como os outros não fazem, encontrar novas linguagens, novos caminhos, formas alternativas de fazer e acontecer. Mas por que motivo temos essa necessidade? Querer ser diferente e fazer diferente hoje em dia é um esforço desumano e uma luta que nunca iremos vencer, ainda por cima tendo em conta a presença tão impositora da tecnologia em tudo o que existe e em tudo o que se faz.
Por que razão queremos inventar o que ainda não foi inventado? Criar produtos novos cuja necessidade ainda não foi sentida? Inventar uma aplicação nova para facilitar o que só é difícil porque há tantas coisas que foram inventadas entretanto que complicaram tudo?
Há um exemplo que me deixa particularmente intrigada que é a tendência de criar embalagens para proteger frutos que já têm uma proteção natural (que é a sua própria casca). Sim, já saberão que podem comprar caixas para bananas, da forma de bananas, da cor das bananas, para transportar bananas e que para nada mais servem do que isso. E não são só as bananas, há imensos objetos assim, que têm um propósito apenas – o descascador, o descaroçador, o desidratador, o separador de claras e gemas, a panela de cozer o arroz e a panela de fazer sopa. E note-se que estamos só a falar, por coincidência, de objetos associados ao ato de comer.
É claro que o consumismo que comanda a vida explica muita coisa, a necessidade de levar o Homem a comprar sempre mais um apetrecho, um novo modelo, uma peça da nova coleção porque a cor que estava na berra na coleção anterior já não se usa. Mas se transpusermos esta questão da urgência em inventar, em ser diferente e pensar diferente para a construção de uma carreira, por exemplo, aqui o caso deixa de ser ridículo e passa a ser desumano. Não devia ser necessário ser diferente, deveria bastar ser dedicado, ser bom. Esta pressão que hoje não se descola de nós é negatividade, é degradação.
Deveríamos ter mais oportunidades de trabalhar de forma digna, sem pressões desnecessárias, e a produção certamente fluía. Vivemos de números, de estatísticas e caminhamos para um mundo em que profissões ligadas a isso são valorizadas. Li há tempos que hoje em dia saem das universidades (Harvard era um dos exemplos) alunos com melhores médias de cursos de economia, marketing, gestão, tecnologias, ciências políticas, e bem menos cientistas, artistas… Fico a pensar que há energia intelectual a ser encaminhada para áreas que são mais valorizadas pelo facto de vivermos numa sociedade de consumo. Ou estaremos a viver numa sociedade de consumo pelo facto de pessoas criativas e influentes estarem em cargos de muito destaque e poder? E isto leva-me a outro pensamento: haverá talento a ser desperdiçado?
Foi previsto no Orçamento de Estado para 2026 um reforço nas condições para os cursos técnico-profissionais, que hoje em dia são vistos, muito erradamente, como aqueles cursos para onde vão ao alunos que não querem estudar, que não querem tirar um curso superior ou mesmo os alunos com mais dificuldades a nível intelectual.
A meu ver, é tão meritório e tão necessário desenvolvermos uma arte! Pensemos: de que precisamos mais frequentemente na nossa vida corriqueira: de um bom picheleiro, qualificado e honesto, ou de um gestor de markerting? De um bom e honesto carpinteiro, ferreiro, eletricista… estão a ver onde quero chegar? Compreendo que nos queriamos desafiar a nós mesmos e conseguir o que ainda não conseguimos, como um desafio pessoal. Parece-me aceitável se o fizermos por nós próprios, e não para impressionar os outros.
Sempre acreditei que se formos bons, dedicados e entregarmos tudo, deixaremos uma marca: na vida familiar, no trabalho, junto dos amigos, em nós mesmos; de uma forma muito mais profunda do que apenas querendo ser diferentes. E fico a pensar que esta deve ser a nossa prioridade: materializarmos mais bondade e mais tolerância em nós e nos outros, todos os dias.
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