Nada sei sobre teoria da cor, mas há uma série de pensamentos que andam a pendurar-se pelo meu subconsciente que estão todos associados à perceção e a importância cor: as cores dos doces, as cores das toalhas lá de casa, a cor na arte, no “marketing” de produtos, nos outdoors dos candidatos às autárquicas…
Abrimos, numa festa de família, um saco de gomas. Eram todas iguais, mas de cores diferentes, e de repente, ali estava um desafio de equipa: tentar descobrir a que sabor correspondia cada cor. O amarelo tanto nos parecia limão como ananás, o verde ora era maçã ou pera, o vermelho a uns soube a morango, a outros cereja, o azul sabia… literalmente a azul. Ninguém conseguia dizer a que fruto correspondia. É tão raro essa cor estar em qualquer alimento natural que não temos referências. Talvez por isso sempre tenha gostado de decorar as cozinhas com o azul — por parecer sempre deslocado no universo da gastronomia. A partir desse jogo de descoberta (e já bastante enjoados) lembramo-nos que o mesmo acontece com os iogurtes ou os rebuçados. Por vezes os aromas que nos habituamos a associar a um determinado fruto ou sabor resultam de uma informação que nos é incutida sem darmos conta durante anos e anos, diria até desde que somos crianças, mas que não nos lembramos de alguma vez ter validado. Simplesmente aceitamos.
Não querendo entrar em pensamentos profundos sobre a forma de combinar as cores e de as associar aos nossos sentidos, acabei por dar comigo a refletir sobre como estas são usadas no “design” de produtos como estratégia de “marketing”. Voltando ao azul, é inegável que fomos formatados numa determinada época a associá-lo a produtos masculinos e o rosa ao universo feminino. Uma escolha estranha, a meu ver, visto que, por exemplo, no universo artístico, antes de existirem cores sintetizadas, o azul era uma cor rara e valiosa, mais valiosa que o ouro, usada sobretudo para retratar o manto de Maria e pouco mais. E que as figuras masculinas da realeza e outras de alto estrato social eram frequentemente retratadas com cores entre o rosa e o vermelho, e raríssimas vezes com azul. (Num aparte, pelos vistos o azul era tão exclusivo que, se fosse usado numa pintura, o orçamento da mesma era feito ao centímetro quadrado!) Azul para meninos e rosa para meninas foi uma boa estratégia de “marketing”, já que a mesma empresa vendia o mesmo produto duas vezes para uma família que tivesse filho e filha — o artigo não era partilhado porque não tinha a cor do seu género.
Há cores que foram sempre algo “gender neutral” como o amarelo ou o verde, e outras que ficam num espaço estranho, como o roxo que, afinal, sendo a junção do ciano e do magenta, tinha alto potencial para ser eleito o mais puro “gender neutral”.
Azul pode ser sereno e tranquilo; intenso e vibrante. Se o escurecermos ao extremo fica elegante, estável. Clareando ao limite fica leve, espiritual. Com o vermelho ou laranja também conseguimos efeitos múltiplos com repercussões diferentes nos nossos sentidos.
“Passa-me a toalha cinza”, diz a esposa ao marido. E lá, com o tempo, o marido aprende que se trata da toalha azul. Porque o azul aos olhos do homem terá sempre mais umas “nuances” de amarelo, e aos olhos da mulher um pouco mais de vermelho. É cinza ou azul? É azul ou verde?
Em campanhas publicitárias, nomeadamente nas campanhas dos diversos partidos que concorrem atualmente às autárquicas por todo o país, é curioso observar a escolha das cores nos “outdoors” de cada candidato. Há um cuidado com a não repetição de cores, de uns candidatos para os outros, não só na minha cidade como em outras. O branco é, por vezes, uma cor usada para associar a limpeza, praticidade, foco e juventude. Os azuis para clareza, transparência, sonho. Os laranjas, vermelhos e até os roxos para mudança, ação, dinâmica. O verde esperança, naturalidade. O rosa está bastante presente, mas como cor auxiliar e raramente como cor predominante.
É curioso como somos influenciados, motivados ou persuadidos de forma tão subtil pela cor, em todos os nossos sentidos.
E o azul… continua a saber a azul.
INFO
ARQUIVO
LOCALIZAÇÃO & CONTACTOS
@ 2026 Maré Viva – Jornal Regional de Espinho
Made by CircleTec.
Para proporcionar as melhores experiências, utilizamos tecnologias como cookies para armazenar e/ou aceder a informações do dispositivo. Ao consentir com estas tecnologias, permite-nos processar dados, como o comportamento de navegação ou ID's exclusivos neste site. O não consentimento ou a sua retirada pode afetar negativamente certos recursos e funcionalidades.