A Escola foi sendo vista como um espaço onde se ensinava, se aprendia e, com alguma sorte, se sonhava. E havia muitos que sonhavam ir à Escola e lá não conseguiam chegar. Mas eis que, no primeiro quartel do século XXI, algo mudou: a Escola tornou-se apetecível, não para quem nela vive (professores, alunos, operacionais), mas para quem a observa de fora, com olhos de quem vê oportunidade onde antes só havia rotina.
Durante décadas, a Escola foi o parente pobre das prioridades nacionais. Agora, de repente, tornou-se o centro das atenções, não por milagre pedagógico, mas porque muitos descobriram que há ali um palco, uma plateia e, claro, dividendos a colher.
Em primeiro e destacado lugar, a classe política descobriu na Escola um palco ideal: lembre-se que, durante muitos anos, se foi dando conta de várias tentativas de “visitas à Escola” por parte de políticos, mas nem sempre vistas com bons olhos por quem lá estava. Hoje, ter políticos a entrar pela Escola adentro já não parece ser novidade. Por outro lado, se as reformas educativas se sucedem com a frequência de um “reality show”, cada uma prometendo ser “a definitiva”, muito se deve ao facto de, desde 2000, Portugal ter tido uma dúzia de ministros da Educação, cada qual com a sua visão, o seu plano, a sua urgência. A estabilidade curricular é hoje uma miragem pedagógica. E a Escola é o único sítio onde se exige excelência com salários a serem descongelados progressivamente, recursos escassos e salas cada vez mais sobrelotadas. Um verdadeiro milagre português! Olhe-se para os resultados internacionais e perceba-se que muito se faz com tão poucos ovos.
A Escola também passou a ser o “El Dorado” para as empresas tecnológicas. Plataformas digitais, apps educativas e soluções “inteligentes” invadiram a Educação – do ministério às salas de aula. A promessa? Modernizar o sistema e o ensino. A realidade? Uma dependência crescente de ferramentas que, muitas vezes, substituem o pedagógico pelo performativo, principalmente quando não há bom senso nem intencionalidade pedagógica no seu uso. Afinal, quem precisa de professores quando se tem uma app com inteligência artificial e emojis motivacionais? Já para não referir os constrangimentos que 312 sistemas de informação causam aos seus utilizadores, muito mais quando estão “em baixo”.
A realidade de quem lá está, de quem vive a Escola, é marcada pela preocupação com o futuro: estamos todos, os professores, a envelhecer e não vemos jovens que nos substituam. Os únicos jovens que habitam a Escola são os que nela entram para aprender. Sublinhe-se que 66% dos professores tem mais de 50 anos, e estima-se que 40% se reformem até 2030. A renovação da classe docente avança ao ritmo de uma tartaruga com “jet lag”. E, nas regiões mais pressionadas, como Lisboa e Algarve, a falta de professores já é crónica. Aliás, ensinar em Lisboa é tão atrativo quanto pagar renda em Paris com salário de estagiário, mesmo que haja ajudas, a partir de setembro, através do apoio à deslocação, que será alargado a todos os professores que se encontrem deslocados a mais de 70 km.
Para finalizar, a Escola tornou-se num território disputado, sim. Mas não por aquilo que é — um espaço de futuro, de formação, de cidadania — e sim por aquilo que cada um quer que ela represente. A Escola é cada vez mais um palco para agendas, um laboratório de experiências, uma vitrina de intenções. Pela sua exposição, mais do que nunca – seja na opinião pública seja nos meios de comunicação –, a Escola está no centro de um debate constante, muitas vezes superficial, revelando a ignorância dos que se arrogam a opinar tudo sobre tudo.
E, no meio de tudo isto, os que lá vivem continuam a ensinar, a aprender e a resistir. Porque, apesar de tudo, ainda acreditam que a Escola pode ser mais do que um território apetecível. Pode ser, quem sabe, um lugar habitável.
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