Na Grécia Antiga, especialmente em Atenas, a educação (ou paideia) não se limitava à instrução técnica ou intelectual (o desenvolvimento académico das aprendizagens); era um processo de formação integral do cidadão, cujo objetivo essencial era o de preparar o indivíduo para participar ativamente na vida da cidade, do espaço público (a polis) — o espaço da cidadania, da política e da ética. É incontornável revisitar, de um modo simples, dois dos Filósofos Gregos que ainda hoje temos por referência em matéria de democracia e de educação: Platão e Aristóteles.
Em A República, Platão propõe um modelo de cidade ideal onde a educação é central. Todos os cidadãos passariam por um sistema educativo rigoroso e apenas os mais aptos se tornariam governantes. A escola, nesse modelo, é o instrumento de formação da elite dirigente da polis. Para Aristóteles, o ser humano só se realiza plenamente na polis, pois é nela que se exerce a vida ética e política. A educação, portanto, deveria preparar o indivíduo para a vida pública, cultivando a virtude e a razão. Inicialmente, a educação era privilégio da aristocracia guerreira. Com o tempo, especialmente com o surgimento da democracia ateniense, ela passou a ser vista como um direito e dever de todos os cidadãos, refletindo a ideia de igualdade política.
Da Escola das elites que marcou, também, o nosso passado (veja-se a taxa de analfabetismo que tivemos ao longo de décadas!), há muito que nos encontramos na Escola de e para todos. Se, por um lado, estamos conscientes de que há fragilidades ao nível da preparação académica dos alunos (que dizer da preparação dos dirigentes políticos?), pois os resultados não têm sido os esperados, por outro lado, é a Escola que vem garantindo, desde o 25 de abril de 74, a formação dos futuros cidadãos, tendo as políticas educativas evoluído significativamente desde a publicação da Lei de Bases do Sistema Educativo (1986). Certo é que sem cidadãos informados, críticos e conscientes, a democracia enfraquece. Não acredito, ao contrário de várias vozes, que a democracia esteja em crise, todavia, há que entender que características apresenta, agora, esta democracia.
Vivemos numa era de desconfiança nas instituições democráticas. A Escola pode (deve, tem de!) ser um espaço de reconstrução da confiança cívica, ensinando como funcionam os sistemas políticos, os direitos e deveres dos cidadãos, e promovendo o debate informado sobre os problemas públicos. Educar é também ensinar a acreditar na possibilidade de mudança através da ação coletiva, da participação na comunidade. Ao promover o pensamento crítico, a análise racional e o confronto de ideias, a Escola torna-se num espaço privilegiado para o combate aos discursos de ódio, à xenofobia e aos extremismos. A ignorância e a desinformação são “terreno fértil” para a radicalização. A educação, por sua vez, desarma o preconceito com conhecimento e empatia.
Considerando este paradigma de mudança, verificamos que a juventude contemporânea tende a mobilizar-se menos por ideologias e mais por causas concretas: veja-se a mobilização dos jovens pela justiça climática, ou a igualdade de género, os direitos humanos ou a proteção animal. Acompanhar esta mudança de paradigma é urgente, valorizando o ativismo informado, o voluntariado e a participação cívica.
Sem perder de vista os fundamentos democráticos que sustentam as lutas e as causas, investir numa formação que desenvolva a melhor versão de cada um (no plano académico, pessoal e coletivo), no quadro de uma cidadania ativa, colocada em prática todos os dias na Escola, esse poderá ser um dos principais caminhos e meios para uma Escola que garante a Liberdade, que deixa bem claro que o caminho não é dos extremismos nem dos radicalismos. Teremos, assim, uma Escola em que a paideia e a polis são elementos estruturantes da sua ação.
INFO
ARQUIVO
LOCALIZAÇÃO & CONTACTOS
@ 2026 Maré Viva – Jornal Regional de Espinho
Made by CircleTec.
Para proporcionar as melhores experiências, utilizamos tecnologias como cookies para armazenar e/ou aceder a informações do dispositivo. Ao consentir com estas tecnologias, permite-nos processar dados, como o comportamento de navegação ou ID's exclusivos neste site. O não consentimento ou a sua retirada pode afetar negativamente certos recursos e funcionalidades.