A água que não vemos

Há uma ilusão de abundância que acompanha quem vive num país com acesso facilitado à água. Abrimos a torneira, a água corre e raramente nos interrogamos sobre o que aconteceu antes ou depois. De onde veio, por onde passou, o que carrega consigo quando regressa ao rio, ao mar, à terra. A água tornou-se invisível porque está sempre presente e essa invisibilidade custa caro.

Este suplemento nasce da convicção que a crise da água não é um problema do futuro, pois é uma realidade que se manifesta nas praias que ficam interditas no verão, nas ribeiras poluídas ou nas faturas que chegam a casa sem que ninguém saiba bem o que está a pagar.

Quisemos perceber o ciclo completo. Não apenas da água que bebemos, mas a que devolvemos – tratada ou não – aos sistemas naturais que um dia a geraram. Percebemos que a sociedade produz poluentes que nem sempre reconhece como seus: o óleo que escorre para o sumidouro, os microplásticos que saem da máquina de lavar, os resíduos que a chuva arrasta até à vala mais próxima. Tudo isso chega ao mar e é lá que esses contaminantes se acumulam de tal forma que os ecossistemas marinhos já não conseguem absorver sem consequências.

As ribeiras e os solos são, neste percurso, os elementos esquecidos. As ribeiras são canalizadas, soterradas, transformadas em valas de drenagem e perderam a sua função ecológica. E, com ela, os solos perdem cada vez mais a capacidade de filtrar, de regular, de sustentar vida.

Mas há uma dimensão deste problema que ainda nos surpreende mais quando a encontramos escrita em números. O mais recente relatório da UNESCO sobre o desenvolvimento da água, publicado precisamente neste Dia Mundial da Água, lembra-nos que a escassez hídrica não afeta todos da mesma forma. Em mais de 70% dos agregados rurais sem acesso à rede, são as mulheres que vão buscar água.

Em Portugal, desperdiçamos 187 milhões de metros cúbicos de água tratada por ano. Pagamos 158 milhões de euros pelo privilégio de a perder. As condutas envelhecem, as tarifas não cobrem os custos, e o mapa da água não faturada está, quase todo ele, pintado de vermelho. O diagnóstico não é novo. O que falta, como sempre, é a vontade de agir antes que a torneira seque.

Trazemos, assim, neste suplemento perguntas que merecem ser feitas em voz alta sobre o que poluímos, o que desperdiçamos, o que destruímos e o que ainda podemos recuperar. A água não pede muito. Pede, apenas, que a vejamos.

Deixar, por último, uma nota de reconhecimento ao biólogo Miguel Santos, cuja colaboração foi determinante para a construção deste trabalho; tanto na identificação de alguns dos entrevistados como na orientação e definição do fio condutor do suplemento.

Boas leituras e até sempre.