Contrariamente ao que a maioria das pessoas julga, a minha ligação efetiva à Cooperativa Nascente não tem uma relação causal direta com a minha família. Naturalmente, que todos nós somos feitos de contexto e aquele em que cresci contribuiu para a minha formação da minha personalidade de uma forma bastante diferente do que teria sucedido se a minha família (pai, avô e madrinha) não estivessem ligados (cada um à sua maneira) à Nascente e, ainda, se eu não tivesse conhecido e convivido com determinadas pessoas desse universo por causa disso.
No entanto, cheguei à Nascente apenas em 1990, pela mão do meu vizinho e amigo Zé Alexandre, que andava no Arte’Pim (dinamizado pela Idalina Sousa) e que, dono de uma imaginação e criatividade fenomenais, percebeu que em mim permaneciam, ainda meio adormecidas, essas características, e pelo meio da paixão comum de livros de banda desenhadas e de aventuras diversas me convenceu a acompanhá-lo numa tarde ao auditório da Nascente, na Rua 16.
Foi por causa da Lina que, anos mais tarde, acabei por entrar no TPE, em novembro de 1992, para fazer de pastor numas janeiras, que se relançavam nesse ano envolvendo várias crianças e jovens. Se antes a Nascente era o que lia no Maré Viva ou me apercebia dos corredores da sede, a partir daqui passou a ser o pertencer a este grupo, aprender com as pessoas que ali andavam (todas mais velhas) e poder começar a perceber que isto me permitia desenvolver algum potencial criativo.
Como já disse uma vez em público, nunca sonhei fazer teatro, nunca quis fazer disso vida. Sempre o fiz como atividade de ocupação de tempos livres, na Nascente, com estas pessoas. Aqui fiz amigos, por causa deles fiz outros tantos. Aqui pude fazer coisas que não teria conseguido fazer noutro lado, em termos de experimentação artísticas e vivências culturais. No fundo, fizemos acontecer.
Imagino que todas as pessoas que fizeram parte destes 50 anos tenham uma história semelhante a esta: de alguma forma aqui vieram para, por causa das pessoas e da criatividade foram ficando. Há uma palavra em falta na frase anterior: Paixão. Enquanto vontade de agir, de fazer algo, gosto por uma atividade, empenho e força de vontade. Paixão no sentido usado pelos gregos e lembrado por Herberto Helder no seu poema.
Acho que é esta a identidade da Cooperativa Nascente. O resultado alquímico da soma, e múltiplas equações, da junção destas pessoas todas e da respetiva forma de estar na vida e de quererem fazer acontecer.
Com mais um ingrediente muito especial: as inúmeras pessoas que estiveram, sempre ou em algum momento, do outro lado: que acompanharam, que assistiram, que foram público e entusiastas, que levaram a palavram e permitira o reconhecimento do trabalho da Cooperativa. Todas elas são fundamentais e merecem a devida honra neste aniversário.
Foi já a pensar nelas que, a propósito dos 30 anos do TPE, quando precisei de criar um personagem para ligar o espetáculo todo (Cocktail Azul, 2005) criei o marido da Cilinha, como evocação de todo esse universo de gente que não fazendo parte ativa da Nascente, assistiu a tudo e acompanhou com proximidade o percurso da cooperativa.
A Nascente sempre foi muito mais que o conjunto dos seus ativistas. Viveu sempre dos sócios e das suas famílias e relações pessoais, bem como de tantas pessoas comuns sem ligação ‘formal’ à Nascente, mas que afetivamente acabaram por também pertencer a este caminho.
A estes dois grupos de pessoas une-as aquela palavra que referi acima. Une-as essa Paixão dos gregos. E, por isso, como brinde de aniversário ao 50.º aniversário da Nascente, deixo aqui o poema que, se tivesse tido oportunidade, teria lido em público na sessão evocativa de hoje à noite no Multimeios. Dedico-o, em especial, a todos as pessoas que se tornaram minhas amigas neste meu caminho na Nascente e que fazem parte daquilo que sou:
Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objetos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável, apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega.
[Herberto Helder]
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