Desde outubro de 2023, mais de 59 mil palestinianos terão perdido a vida como consequência direta de ataques israelitas, de acordo com múltiplas fontes locais e internacionais. A maioria destas vítimas, dizem, serão mulheres e crianças.
Outros fatores, como a destruição de infraestruturas civis, hospitais, escolas, mesquitas e centros de distribuição de alimentos, transformaram Gaza numa zona de ruínas e desespero latente, onde a fome alastra e os cuidados médicos praticamente colapsaram. Só esta semana, terão morrido 15 pessoas por inanição (estado de fraqueza extrema, por falta de alimentos), entre elas quatro crianças.
Focada na urgência da paz e na necessidade de repor a normalidade no território, a Cooperativa Nascente promove, em conjunto com outras associações e ativistas, a iniciativa cultural e solidária “Palestina Viva” (26 de julho), que juntará artistas, entidades e cidadãos num dia de reflexão, criação coletiva e mobilização, pela dignidade dos povos.
Nesta jornada cultural e de consciencialização, aberta a todas as idades e com entrada gratuita, o programa de atividades divide-se entre o Auditório Nascente e o jardim da Vila Manuela onde, logo pela manhã, terá início a pintura coletiva do mural “Resistance”, com curadoria do Coletivo Salitre.
A pintura da envolvente estará centrada numa figura feminina e no tatreez – técnica de bordado palestiniana – que permanece como símbolo de resistência, da criação e até da persistência cultural. Até porque “Resistance is the deepest form of love” (“A Resistência é a forma mais pura de amor”), como se lê na frase da artista Areej Kaoud, que acompanhará visualmente a instalação. Espera-se que a pintura, de grandes dimensões, seja desenvolvida em colaboração com outros artistas, e também com o público. Às 14h30, no mesmo local, será também inaugurada a instalação de roupas “Em Gaza, matam-se os inocentes”, com dados em torno do conflito, numa intervenção visual, que procurará materializar o sofrimento de um povo.
No Auditório, as atividades começam logo pelas 10h30, com uma oficina de postais, e prosseguem pelas 14h00, com a exibição do documentário “Um Povo Sem Terra”, de Eliyahu Ungar-Sargon. Duas horas depois, pelas 16h00, acontece uma sessão de contos palestinianos. Nela, participarão contadores de histórias como Cândida da Luz, Estefânia Surreira, Maria Rouco, Rosário Ribeiro e Vítor Fernandes. Durante todo o dia, o espaço será também ocupado por bancas de livros e cerâmica.
Pelas 17h00, terá início uma conversa aberta, que contará com a participação do Movimento pelos Direitos do Povo Palestino (MPPM), representado pelo professor e escritor José António Gomes, e também Joana Nossa, do Grupo de Apoio a Refugiados Palestinos/Portugal. O diálogo será partilhado com o público, abordando o atual contexto político e humanitário palestiniano.
As atividades encerram pelas 19h30, com o coletivo “Poesia às 7”, que fará uma homenagem à literatura palestiniana enquanto forma de resistência e expressão identitária.
A situação na Faixa de Gaza foi descrita ainda este mês, de julho, pelas Nações Unidas, como um “inferno na Terra”, noticiou o “The Guardian”. Estima-se que, desde maio deste ano, mais de mil pessoas tenham perdido a vida por força da escassez de bens alimentares.
O mesmo jornal dá nota de que o exército israelita terá protagonizado uma incursão militar em Deir al-Balah, um dos territórios que, até agora, estava a ser relativamente poupado. Milhares de palestinianos terão recebido ordens para evacuarem a área, devido à intensificação dos bombardeamentos aéreos e da ofensiva terrestre. Perto de cem pessoas terão morrido no local, enquanto aguardavam nos corredores de ajuda.
O que está em causa?
Foto: Aministia Internacional
O conflito na Faixa de Gaza representa uma das mais graves crises políticas e humanitárias da atualidade. Está em causa a ocupação prolongada, o bloqueio imposto por Israel e Egipto desde 2007, e a ausência de uma solução política que garanta os direitos do povo palestiniano. Governada pelo Hamas, considerado por Israel e outros países como uma organização terrorista, Gaza tem sido palco de sucessivos confrontos armados, onde a população civil tem arcado com as maiores consequências.
A região enfrenta hoje uma catástrofe humanitária sem precedentes: hospitais destruídos, escassez de alimentos, água e medicamentos, e milhares de mortos, na sua maioria mulheres e crianças. A comunidade internacional permanece dividida quanto à solução. Enquanto alguns países apelam ao reconhecimento do Estado da Palestina e à criação de dois Estados, outros condicionam qualquer avanço à desmilitarização do Hamas e à existência de um governo palestiniano unificado. No fundo, o que está verdadeiramente em causa é a sobrevivência de um povo privado de liberdade, segurança e autodeterminação, numa região marcada por décadas de ocupação, impunidade e inação política.
Parlamento português continua a não reconhecer o Estado da Palestina
No passado dia 11 de julho, a Assembleia da República rejeitou todos os projetos de resolução que apelavam ao reconhecimento oficial do Estado da Palestina por parte do Governo português. As propostas foram chumbadas com os votos contra do PSD, CDS-PP, Chega e Iniciativa Liberal (IL). A única exceção foi o projeto do PAN que recomendava o acolhimento de crianças palestinianas para cuidados médicos em Portugal, o qual foi aprovado com abstenções à direita e apoio da esquerda.
Seis dos dez partidos com representação parlamentar — entre os quais PCP, BE, Livre, PAN, JPP e PS — defenderam o reconhecimento da Palestina, com base nas fronteiras anteriores a 1967 e Jerusalém Oriental como capital. O PS, apesar de apresentar uma proposta nesse sentido, viu parte dos seus deputados votar a favor das iniciativas da oposição, incluindo Pedro Nuno Santos.
O Livre foi mais longe, propondo também a suspensão imediata do Acordo de Associação entre a União Europeia e Israel. Durante o debate, tanto o BE como o PCP acusaram o Governo português de inação e cumplicidade, com Mariana Mortágua a falar em “genocídio em curso” e Paulo Raimundo (PCP) a considerar que Portugal continua “com as mãos manchadas de sangue” pela sua posição passiva.
Por outro lado, os partidos à direita — PSD, CDS-PP, Chega e IL — rejeitaram o reconhecimento imediato. Argumentaram que este só poderá acontecer após o desarmamento do Hamas, a libertação de reféns israelitas, a realização de eleições e a existência de uma autoridade palestiniana legítima. Já o Chega acusou a esquerda de ignorar os “atos terroristas do Hamas”, enquanto o CDS-PP considerou que o reconhecimento prematuro seria “apoiar o terrorismo”.
O PSD reforçou que apoia a criação de um Estado Palestiniano apenas num território “limpo de grupos terroristas” e em condições que garantam estabilidade. A IL defendeu uma “estratégia equilibrada” para promover uma solução pacífica e duradoura para o conflito.
Até março de 2025, cerca de 146 dos 193 Estados-membros da ONU reconheceram o Estado da Palestina, alicerçando-se sobretudo na Declaração da Independência da Palestina , datada de 15 de novembro de 1988. Em maio de 2024, já vários países da Europa, como a Espanha, Irlanda e Noruega, anunciaram o seu reconhecimento formal; no mesmo ano, mas na América Latina, México, Barbados, Jamaica e Arménia juntaram-se ao apelo.
Um Mundo (cada vez mais) partido
Durante a cimeira de Bogotá, que aconteceu na semana anterior, a 15 e 16 de julho, doze dos 32 países presentes aprovaram medidas, que vão desde as sanções a Israel, até mecanismos de justiça internacional e embargo de armas. Um conjunto de 28 países (incluindo Portugal, Reino Unido, Canadá e Japão) emitiu um comunicado, onde é exigido o fim “imediato” do conflito, sublinhando o número elevado de mortes entre civis. Israel respondeu ao apelo, caracterizando-o como “desconectado da realidade”, e acusando simultaneamente o Hamas de “boicotar” qualquer cessar-fogo imposto.
Já a Gaza Humanitarian Foundation (GHF), apoiada pelos Estados Unidos e por Israel, está a enfrentar várias acusações relacionadas com o desenvolvimento do conflito, estando a ser denunciado que a organização estará a contribuir para a degradação da situação humanitária. De acordo com o Washington Post, são cada vez mais as vozes que afirmam que a GHF tem tornado a ajuda humanitária inacessível. Já várias outras organizações, como a ONU, exigiram a suspensão da ação da GHF.
Do outro lado do Mundo, americanos anunciaram esta terça-feira, 22 de julho, a sua retirada da UNESCO, acusando a organização de promover uma “agenda globalista e ideológica” que, segundo Washington, colide com os interesses da política externa norte-americana. A decisão, comunicada por Tammy Bruce, porta-voz do Departamento de Estado, deverá tornar-se efetiva no final de Dezembro de 2026.
A posição norte-americana assenta na acusação de que a UNESCO tem um pendor anti-Israel e adota causas culturais e sociais consideradas “facciosas”. Entre os motivos invocados pela Casa Branca estão críticas às políticas de diversidade e inclusão da organização, e também iniciativas voltadas para a igualdade de género, que os EUA consideram “excessivamente ideológicas”.
Em concreto, a administração Trump contesta o reconhecimento, por parte da UNESCO, de locais palestinianos como Património Mundial — que Washington entende serem de herança judaica —, bem como o uso da expressão “ocupação” para designar a presença israelita em territórios palestinianos, em conformidade com resoluções da ONU.
Esta será a terceira vez que os EUA abandonam a UNESCO. A primeira ocorreu em 1983, sob Ronald Reagan, alegando má gestão e influência soviética. A segunda deu-se em 2017, durante o primeiro mandato de Donald Trump, também por alegado preconceito anti-Israel. Os EUA tinham voltado à organização em 2023, por decisão da administração Biden.
A diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, lamentou a decisão, embora tenha admitido que a saída era já esperada. Fontes próximas da administração norte-americana confirmaram que, desde Fevereiro, estava em curso uma avaliação interna da participação dos EUA na UNESCO, focada no seu alinhamento com valores conservadores e na sua postura face a Israel e à Palestina.
Artigo atualizado a 25 de julho