Apesar do nome pouco conhecido, a misocinesia é um fenómeno comum e está entre as palavras mais procuradas pelos portugueses nos motores de pesquisa online. O movimento incessante de um pé, o tamborilar dos dedos ou um qualquer gesto repetitivo é suficiente para desencadear irritação, ansiedade ou até raiva em quem observa.
“A misocinesia é uma perturbação emocional caracterizada por uma aversão intensa a movimentos repetitivos realizados por outras pessoas. Embora não esteja formalmente reconhecida nos manuais de diagnóstico, a literatura científica mais recente já a identifica como um fenómeno neuropsicológico real e bastante comum”, lê-se num artigo da Clínica Tear.
Esta afirmação é sustentada por um estudo publicado na revista Nature, em 2021, que revela o seguinte: em três investigações que envolveram mais de 4.100 participantes, os investigadores concluíram que cerca de um terço das pessoas sente algum nível de sensibilidade ao ver comportamentos repetitivos e inquietos de outras pessoas no quotidiano. Esta foi a primeira investigação a analisar este fenómeno de forma sistemática em populações não-clínicas.
Quais são os sintomas?
A misocinesia manifesta-se sobretudo como uma reação emocional negativa. Pode ser desencadeada pela observação de movimentos repetitivos alheios, tais como: abanar a perna, mexer constantemente as mãos, roer as unhas, balançar na cadeira ou mexer em objetos (como uma caneta) sem parar.
Os sintomas mais comuns incluem a irritação súbita ou crescente, desconforto físico (tensão muscular, aceleração cardíaca), ansiedade, dificuldade na concentração, desejo imediato de se afastar ou de fazer parar o movimento, raiva ou frustração desproporcional ao estímulo.
Importa sublinhar que isto não se trata de impaciência. Muitos participantes dos estudos conduzidos referiram impactos reais no seu bem-estar social e emocional, incluindo dificuldades em estar em salas de aula, nos transportes públicos ou em ambientes de trabalho.
Porque é que isto acontece?
A ciência ainda não tem uma explicação definitiva, mas o estudo da Nature dá algumas pistas relevantes. Apesar de a misocinesia coexistir frequentemente com a misofonia (aversão intensa a sons repetitivos), os investigadores descobriram que muitos indivíduos apresentam apenas sensibilidade ao movimento, o que indica que a misocinesia não é simplesmente a “versão visual” da misofonia.
Quando se tentou perceber se estas pessoas tinham maior suscetibilidade a distrações visuais, os resultados mostraram que não: a sensibilidade à misocinesia não parece resultar de um défice de atenção, mas de uma reação emocional específica a determinados movimentos.
Uma das hipóteses mais fortes aponta para mecanismos associados ao cérebro, que respondem à observação do comportamento humano. Estes movimentos repetitivos e de inquietação são frequentemente sinais de ansiedade ou agitação. Ora, ao observá-los, o cérebro do observador pode espelhar essa tensão, gerando essa sensação de desconforto.
Há ainda indícios de que a intensidade da misocinesia pode variar mediante fatores individuais, como a idade, género ou origem cultural e social, uma vez que as diferenças demográficas das amostras influenciaram os níveis de sensibilidade registados.
Existe tratamento?
Atualmente, não existe um tratamento específico para a misocinesia, sobretudo porque a condição ainda não está formalmente definida nos sistemas de diagnóstico. Contudo, algumas estratégias usadas noutras sensibilidades sensoriais, como a misofonia, podem ajudar. Entre elas incluem-se: técnicas de regulação emocional, exercícios de respiração, estratégias de distração visual, práticas de mindfulness e, em alguns casos, acompanhamento psicológico baseado em terapia cognitivo-comportamental. Embora estas abordagens não a eliminem por completo, podem reduzir a intensidade das reações e melhorar o bem-estar.
Isto é um fenómeno raro?
Nem por isso. Os dados do estudo dizem o contrário: a misocinesia é comum, pode atingir até um terço da população e pode ter impactos sociais e emocionais relevantes (e até crescentes com a idade).
Os próprios investigadores alertam para a necessidade de desenvolver melhores instrumentos de avaliação, uma vez que os questionários utilizados ainda não captam totalmente a experiência subjetiva da misocinesia. Há, portanto, ainda muito por descobrir.
Fonte consultada: Jaswal, S.M., De Bleser, A.K.F. & Handy, T.C. “Misokinesia is a sensitivity to seeing others fidget that is prevalent in the general population”. Sci Rep 11, 17204 (2021).