Há cerca de um mês, a União Europeia (UE) e o bloco sul-americano Mercosul chegaram, ao fim de mais de duas décadas de negociações, a um acordo de parceria que promete reforçar o comércio entre dois dos maiores mercados do mundo. Apresentado como um instrumento para dinamizar exportações, reduzir tarifas e fortalecer relações geopolíticas, o tratado continua, porém, a dividir opiniões, governos, setores económicos e, sobretudo, os agricultores.
O que é o Mercosul?
O Mercosul (Mercado Comum do Sul) é um bloco económico criado em 1991, através do Tratado de Assunção, que integra o Brasil, a Argentina, o Paraguai e Uruguai, com a Bolívia em processo de adesão. O objetivo é promover a livre circulação de bens e serviços e uma política comercial e de investimentos comum. No conjunto, representa mais de 260 milhões de consumidores.
Por que motivo a UE fez um acordo com o Mercosul?
As conversações começaram em 1999, num período em que a globalização económica acelerava e a UE procurava reforçar a sua influência. O acordo surge, assim, de uma lógica dupla: garantir o acesso a um mercado de mais de 260 milhões de consumidores e afirmar presença geopolítica europeia na América do Sul. Os documentos europeus indicam que o tratado visa “aprofundar relações económicas e políticas entre parceiros estratégicos”.
Quais são as principais realizações do acordo?
A 17 de janeiro de 2026, os estados do Mercosul anunciaram a assinatura do Acordo de Associação e do Acordo Interino de Comércio com a União Europeia, uma “conquista histórica” que fortalece as relações comerciais, políticas e de cooperação entre ambas as regiões.
O tratado prevê a eliminação progressiva da maioria das tarifas alfandegárias entre os dois blocos, regras comuns em matéria sanitária e fitossanitária, e compromissos ambientais e laborais. A Comissão Europeia afirma que este será “um dos maiores acordos comerciais do mundo”, abrangendo cerca de 20% do PIB global.
Qual será o impacto global na economia da UE?
As estimativas da Comissão Europeia apontam para ganhos nas exportações, sobretudo nos setores automóvel, maquinaria e equipamento industrial, produtos medicinais e farmacêuticos. O acordo poderá também reduzir custos para empresas que importam matérias-primas da América do Sul.
Entre as principais medidas aprovadas no acordo, destaca-se a eliminação de tarifas, por parte dos países-membros do Mercosul, sobre a quase totalidade (91%) das exportações da União Europeia.
Do lado europeu, há o compromisso de eliminar igualmente, de forma progressiva, tarifas sobre 92% dos produtos exportados pelo Mercosul para a União Europeia durante uma década. Os países sul-americanos poderão ainda aqui vender sem esse peso tarifário o que mais exportam para o espaço comunitário, como produtos agrícolas e minerais.
De que forma o acordo ajudará as pequenas empresas?
A simplificação de procedimentos alfandegários e a harmonização de normas técnicas deverá facilitar a entrada de pequenas-médias empresas nos mercados sul-americanos. Bruxelas entende que “as pequenas empresas serão as primeiras a beneficiar da redução da burocracia e dos custos de exportação”.
Como se chegou a acordo ao fim destes anos?
O avanço recente resultou de concessões mútuas e da pressão geopolítica para diversificar parceiros comerciais num contexto de tensões globais. A UE procurou incluir compromissos ambientais mais robustos, enquanto os países do Mercosul exigiram maior abertura europeia a produtos agrícolas.
Porque se opõem alguns países ao acordo?
Apesar de tudo isto, há países que não se mostram favoráveis a este acordo, como França, Polónia, Áustria, Hungria e Irlanda. É que o setor agrícola europeu receia a concorrência desleal de produtos sul-americanos, pois apresentam custos de produção mais baixos e regras ambientais diferentes. As organizações agrícolas consideram que a entrada de carne bovina, aves, açúcar ou etanol poderá pressionar os preços internos.
Também em Portugal as críticas têm sido audíveis. Os agricultores têm alertado para um eventual “esmagamento de preços” em produtos como carnes, leite, milho, arroz e mel, que, dizem, pode ameaçar os pequenos e médios produtores.
Ainda assim, o ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, sustenta que o tratado terá um “impacto positivo importantíssimo” e poderá permitir a Portugal reduzir o défice comercial com o mercado sul-americano.
Fontes consultadas: Comissão Europeia; Conselho da União Europeia; Parlamento Europeu; Portal institucional do Mercosul.