Eleita pelo Partido Socialista, a autarca recorda a forma como assumiu o cargo na sequência da Operação Vórtex e a rutura com o então vice-presidente Luís Canelas, a quem retirou pelouros por “quebra de confiança”.
A preparar-se para encabeçar a candidatura independente “É por Espinho”, garante que não se deixa condicionar pelas “quezílias dos partidos” e aponta prioridades claras: concluir um Estádio Municipal “à medida” das possibilidades, reabilitar a escola Domingos Capela com fundos próprios, modernizar a rede de abastecimento de água e devolver dignidade a bairros históricos, como o das “Famílias Pobres”, em Silvalde.
Apesar de admitir que “fica muito por fazer”, insiste que “dois anos é pouco tempo para mudar um concelho”; ainda assim, no final, acredita que o atual mandato foi “positivo”.
Assumiu o cargo de presidente da Câmara Municipal de Espinho por força do aparecimento da Operação Vórtex. Hoje, como se sabe, está desvinculada do PS, partido pelo qual foi eleita. Ainda assim, recuando no tempo, pergunto: a sua escolha como presidente foi, à altura, consensual dentro do partido?
Foi consensual, sim; Miguel Reis havia sido detido, Álvaro Monteiro não aceitou continuar, porque de facto nunca largou a atividade médica. Por isso, foi uma questão quase lógica: era a terceira da lista, e assumi. Na altura, o partido aceitou de imediato que assim fosse, sim.
Se não o, este terá de certo sido um dos momentos mais delicados da história política do concelho…
E sentimo-lo de forma muito própria. Hoje, olhando para trás, percebo que nem nós tínhamos bem noção do que se estava a passar. A Operação despoleta a 10 de janeiro, e assumo a autarquia passados seis dias, a 16. Nessa altura, ainda não se sentia o abalo: as ondas estavam-se a propagar. Olho para este como o maior desafio que tive na vida, e talvez o tenha superado por ter já muita experiência em lidar com emoções. Um professor tem de estar habilitado para isso.
De que forma é que o dia a dia de uma Autarquia se altera por força de um acontecimento desta natureza?
O maior desafio que tive em mãos foi o de reabilitar as pessoas, sem sombra de dúvida. Principalmente aquelas que estavam ligadas ao Urbanismo e às Obras. Encontrei divisões completamente destroçadas. Lembro-me de uma primeira reunião que fizemos em que uma grande parte das pessoas só chorava, quase nem conseguíamos comunicar, tal era o nervosismo latente. As pessoas estavam de rastos…
E o próprio executivo havia sido ferido…
Sim, eu própria tinha as minhas fragilidades, embora não tenha por hábito demonstrá-las… Tinha acabado de assumir o lugar. Naquele momento, o importante era restaurar-lhes a confiança, dizer-lhes que eram capazes, que nunca lhes pediria que licenciassem algo que não fosse concordante com o PDM e com a legislação em vigor.
Entrei há quatro anos, mas assumi o leme verdadeiramente há dois. E dois anos é manifestamente pouco tempo. Ainda assim, neste curto intervalo de tempo, realizamos imenso trabalho.
- Maria Manuel Cruz, presidente da Câmara Municipal de Espinho
Herdou um contexto complexo, e os serviços necessitaram de tempo para voltar a reagir. Por tudo isto, teme que o seu mandato possa vir a ser recordado pelos piores motivos?
Entrei há quatro anos, mas assumi o leme verdadeiramente há dois. E dois anos é manifestamente pouco tempo. Ainda assim, neste curto intervalo de tempo, realizamos imenso trabalho. Bem sei que as redes sociais não concordam com isto, que muita gente não acredita, mas tenho consciência de que o trabalho desenvolvido em apenas dois anos foi enorme.
Quando assumimos esta Câmara, não havia nenhum projeto para desenvolver. Nenhum… E para se lançar obra, é preciso planear. A contratação pública impede os municípios de terem um processo mais célere, e considero que neste curto intervalo conseguimos muito, porque também trabalhamos muito. Mas isso teve um custo: abdicamos da família, do nosso descanso. Foi exaustivo…
Pode enumerar alguns exemplos concretos desse “planeamento”?
Podemos olhar para o caso do Centro de Saúde da Marinha: não retiro mérito a quem o negociou, a quem conseguiu reabrir, mas não bastou isso. Teve de se fazer um projeto de arquitetura, relançar o concurso, rever o projeto… A obra saiu, está a realizar-se, mas leva o seu tempo.
O mesmo se passou com o nosso dispositivo de salvamento aquático, por exemplo. A nossa sorte foi ter conseguido um projeto interno para o efeito. Vamos dar início à repavimentação da Rua dos Combatentes [Guetim] até à A29. Este projeto foi rápido porque lhe conseguimos dar resposta internamente. Mas isto do ‘rápido’ são meses… A envolvente da Vila Manuela, a repavimentação da Rua 15…
Trabalhamos imenso para ter projeto para a requalificação da Nave Desportiva, que está em fase final de revisão. Aquela cobertura é muito complexa, sempre teve problemas estruturais e nunca conseguiu vedar a água. Falamos de uma empreitada com um valor superior a um milhão de euros, e portanto não podemos correr riscos. Assim como o balnear marinho, um dos nossos equipamentos mais emblemáticos. A cobertura do Centro Multimeios, que está completamente degradada.
Trabalhamos muito por isto, por todos estes projetos… Por isso, digo: se nos recordarem pelos piores motivos, estaremos a ser injustamente avaliados. Quando as críticas são saudáveis, são bem-vindas. Não somos perfeitos, e crescemos através desse feedback. Agora, a crítica feita de forma gratuita, atrás de um teclado, sem apresentar soluções… Não é crítica; é maldade.
Desvinculou-se do Partido Socialista em fevereiro deste ano, e retirou a confiança política a Luís Canelas, à altura vice-presidente da autarquia. Como hoje se sabe, será ele a encabeçar a candidatura socialista à Câmara, em outubro. Entre as suas justificações para a decisão, falou de um “comportamento ético questionável”. O que é que, em concreto, fez Luís Canelas, para o afastar do cargo?
Tudo isto começa na Concelhia. Sei que se realizaram algumas reuniões nas quais não estive presente. Segundo aquilo que me foi transmitido, na reunião em que indicaram a pessoa que seria candidata a presidente da concelhia, não estive também presente. Aquilo que eu sei é que fui chamada a Lisboa a 13 de fevereiro, por e-mail, e lá fui. Fiquei a saber que, na véspera, Luís Canelas já lá tinha estado e, nesse encontro, já se apresentava como o candidato.
Os responsáveis do partido deram-lhe alguma justificação para tal?
Aquilo que me disseram foi que haviam feito uma sondagem – que nunca me mostraram – e que, por força da mesma, Luís Canelas seria o candidato do partido à Câmara Municipal de Espinho. Pediram-me que eu trabalhasse até ao fim para que ele ganhasse as eleições. Foi isto.
Como é que recebeu essas palavras?
Tenho mais de 40 anos de trabalho, de função pública, de escola pública, que foi onde sempre exerci. Portanto, quando me dizem para eu trabalhar para que determinado candidato possa vir a ganhar as eleições, já estão a dizer tudo… Talvez o candidato não reunisse as condições necessárias, já que continuava a depender do meu desempenho para ter ou não sucesso. Assim, entendi que não valia a pena.
Sentiu-se ultrapassada?
Ele tinha estado em Lisboa na véspera, e não teve a dignidade de me comunicar que o havia feito. Isto para mim diz tudo sobre as qualidades de uma pessoa. Assim, entendi que não havia condições para que estivesse a trabalhar num cargo de confiança.
Recordo que Luís Canelas estava em quinto na lista eleita e, por ser do partido, passou à frente de outras pessoas [Leonor Fonseca]. Isto são lugares de confiança, e ele quebrou-a. Daí ter ficado sem pelouros. Para além disso, soube também que Luís Canelas já tinha andado a convidar outras pessoas para serem candidatos pelo PS em Espinho… Por tudo isto, não poderia cá continuar.
A título de esclarecimento, atualmente, e em termos práticos, o que é que Luís Canelas faz neste executivo?
É um vereador como os do PSD, que vem às reuniões de câmara, e recebe as respetivas senhas de presença. Apenas isso.
Soube também que Luís Canelas já tinha andado a convidar outras pessoas para serem candidatos pelo PS em Espinho… Por tudo isto, não poderia cá continuar [como vice-presidente].
- Maria Manuel Cruz, presidente da Câmara Municipal de Espinho
Recentemente foi acusada, nomeadamente pelo Partido Socialista, de governar de forma “autocrática” e de “manipular” os munícipes. Compreende a razão destes comentários?
A Democracia vive do debate, e das diferentes visões. Isso faz parte do jogo político e aceito-o plenamente. Mas quando ouço acusações de autoritarismo, pergunto-me: será autocrático tomar decisões difíceis que ninguém teve coragem de tomar antes? Será manipulação ser transparente sobre os problemas que herdámos?
Lidero com a porta aberta, com reuniões públicas, com prestação de contas regular. Se isso é autocracia, então redefiniram o conceito. Os espinhenses não são ingénuos: sabem distinguir entre quem fala muito, e quem trabalha de verdade. E trabalhar com determinação, assumindo responsabilidades das quais outros fugiram, não é autoritarismo: é liderança.
Falando do incontornável Estádio Municipal: há avanços a registar neste dossier? A 25 de março deste ano deu nota da necessidade de reajustar o projeto…
Logo em 2023, fiz uma conferência de imprensa e tive oportunidade de explicar o que se estava a passar. O estádio foi e continua a ser alvo de uma investigação – da qual estou à margem – e este ano entendemos que estavam reunidas as condições para se relançar a obra.
Acontece que, antes de voltarmos a relançar o concurso para projeto, não nos podemos esquecer que estão lá dois milhões de euros gastos. Tenho dito isto: é uma questão de honra. Ainda sou das pessoas que acredita que palavra dada é palavra honrada. O estádio vai ser uma realidade, mas tem de ser concordante com a nossa capacidade, à nossa medida.
Dará algum tipo de prioridade a esta empreitada?
Se cá continuarmos, aquilo que eu quero é um local que possa ser e estar devidamente certificado para jogos, mas que possa evoluir. No início, se precisarmos apenas de uma bancada e três balneários, vamos construir o estritamente necessário à realização de jogos. Portanto, a preocupação será essa, inicialmente: uma obra digna, com condições que permitam a realização de jogos, mas adequada à nossa realidade. Uma obra que se possa manter [economicamente], e que possa vir a ser ampliada no futuro.
Lembro que o projeto anterior nem se quer contemplava a parte da iluminação, por exemplo, ou a drenagem de águas. A base será partir do que já está edificado para construir o estádio possível. Está prestes a ser concluído o estudo preliminar, que nos permitirá lançar o concurso de arquitetura. Já disse, e não me canso de o repetir: deem-me tempo, que eu faço. Se o disser, é porque o sinto.
No balanço dos primeiros 100 dias de mandato, Miguel Reis, à altura presidente, anunciava derrapagens na ordem dos 9 milhões de euros nas grandes obras do concelho, como o Recafe. Hoje, esse valor aumentou? De que números poderemos estar a falar?
A verdade é que a realidade que encontrámos foi ainda mais dramática do que imaginávamos. Chegámos e encontrámos um verdadeiro caos: obras sem projeto final, contratos mal negociados, cronogramas fantasiosos. Foi como herdar uma casa em obras, sem planta nem orçamento. Hoje, estaremos a falar de cerca de 10 milhões de euros só em processos judiciais. Dez milhões…
Temos empreiteiros com pedidos de indemnização astronómicos na secretária, e alguns casos obrigaram-nos literalmente a recomeçar do zero para garantir que as pessoas não ficam em perigo. Mas diria que a diferença é esta: enquanto outros esconderam os problemas debaixo do tapete, nós pomos tudo em cima da mesa. Transparência dói, mas é o único caminho para resolver.
Já tornou pública a intenção de requalificar espaços como o FACE ou a Nave. Pergunto: em que estado está o dossier da Domingos Capela? Quando se perspetiva que a obra possa arrancar?
Costumo definir a Domingos Capela como um projeto do coração. Imagine: uma escola que foi o orgulho de Espinho, abandonada há anos, enquanto se gastavam fortunas noutros locais. Isto é inadmissível…
Já temos o projeto aprovado e vamos lançar a obra ainda este ano, com dinheiro nosso – sem esperar por fundos europeus ou promessas vazias. Quando reabrir, a Domingos Capela vai ser mais do que uma escola: vai ser um centro cultural vivo, onde a música, a educação e a juventude se encontram. Chega de inaugurações de fachada. Queremos substância, utilidade real para as pessoas.
Espinho tem sido notícia por ser o território que mais água desperdiça na Área Metropolitana do Porto (AMP). Há melhorias a registar neste setor? Relembro que a substituição e modernização da rede de abastecimento era uma das promessas eleitorais deste executivo…
Temos feito alguns investimentos, nomeadamente na monitorização das nossas ruturas, mas o que vamos fazer de melhor ainda está por vir. Está feito um projeto, a nível interno, de reabilitação da rede de abastecimento.
Claro que estamos a falar de uma iniciativa de vários milhões, que será feita por lotes, com recurso a fundos. E só poderia ser assim: não iríamos andar a escavacar todo o território.
Quando se perspetiva que a intervenção possa arrancar?
Este primeiro lote, que penso que até já terá sido adjudicado, terá de estar pronto – não por questões eleitorais – até outubro, porque foi o compromisso que firmamos.
Assim nos obriga o financiamento, que rondará os 80%. As nossas condutas estão todas em péssimo estado, grande parte delas ainda são em fibrocimento, e sistematicamente estão danificadas.
O concelho cresceu, as ligações também cresceram, e portanto a pressão da água tem aumentado, e as ruturas são mais frequentes. Este será, para mim, o investimento estruturante deste concelho.
Sei que as pessoas estão fartas de promessas. Eu também estaria. Por isso, pedimos apenas isto: julguem-nos pelos resultados, não pelas palavras bonitas. A paciência vai compensar.
- Maria Manuel Cruz, presidente da Câmara Municipal de Espinho
Estado da rede viária: este é um tópico em que os problemas parecem crescer de semana para semana, com várias situações que chegam a aguardar semanas/meses por resolução. Que análise faz do estado atual do tecido viário do concelho?
As estradas do concelho de Espinho estão uma vergonha, e não tenho medo de o dizer. Décadas de remendos e soluções de recurso transformaram o nosso concelho numa chicana permanente. Mas não somos do tipo que se lamenta: agimos.
Já começámos as intervenções prioritárias e estamos a preparar um plano de repavimentação inteligente: não queremos mais aqueles buracos que se tapam hoje, e reabrem amanhã. Queremos fazer bem feito, de uma vez por todas.
Sei que as pessoas estão fartas de promessas. Eu também estaria. Por isso, pedimos apenas isto: julguem-nos pelos resultados, não pelas palavras bonitas. A paciência vai compensar.
A presidente já anunciou a intenção de negociar com a IP no sentido de passar a EN109 para o domínio do Município. Há avanços a registar nestas conversações?
A EN109 é a nossa autoestrada urbana, mas está nas mãos de Lisboa… É surreal. Já nos reunimos com as Infraestruturas de Portugal (IP) e deixámos claro: queremos assumir esta responsabilidade, mas com condições. O Governo quer dar-nos dinheiro apenas para alcatrão? Isso é uma palhaçada. Uma estrada não é só asfalto – são água, luz, esgotos, passeios, segurança.
Não vamos fazer obra de cosmética para inaugurar em período eleitoral. Calculámos tudo: 10 milhões de euros para uma requalificação séria e definitiva. Está do lado deles decidir se querem uma solução real ou mais um remendo. Nós sabemos o que queremos.
Criação da Polícia Municipal: este tópico tem feito correr alguma tinta, já várias forças políticas se demonstraram contra em sede de Assembleia Municipal. Preveem-se custos de 1,4 milhões de euros no primeiro ano. Na sua visão, em que medida é que esta nova força policial beneficiaria o concelho?
A Polícia Municipal divide opiniões, mas sabe porquê? Porque mexe com interesses instalados. Hoje, quem fiscaliza o estacionamento abusivo? Quem controla o ruído? Quem garante que as regras ambientais são cumpridas? A resposta é: quase ninguém, ou quando muito, de forma esporádica.
Os 1,4 milhões não são um custo: seria, sim, um investimento em qualidade de vida. Queremos agentes de proximidade, que conhecem o terreno, que trabalham com a PSP, não contra ela.
Espinho merece uma cidade organizada, onde as regras se cumprem e onde o civismo é protegido. Compreendo os receios, mas apostem connosco: quando virem os resultados, vão perceber que foi a decisão certa.
Saúde: neste domínio, tivemos a recente apresentação do Plano Municipal de Saúde, e entre as suas prioridades estava o reforço nas respostas concelhias ao nível da saúde mental. O que se perspetiva neste campo?
Olho para a saúde mental como uma epidemia silenciosa do nosso tempo. A pandemia deixou feridas que ainda não sararam, principalmente nos mais jovens e nos mais idosos. Já temos gabinetes de apoio psicológico nas freguesias – pagos por nós, diga-se – mas queremos ir mais longe: técnicos especializados nas unidades de saúde, parcerias com universidades, respostas de proximidade. Não podemos esperar que Lisboa resolva tudo. A saúde mental trata-se aqui, com as pessoas que conhecemos, nos sítios onde vivemos. É urgente e é possível – basta querer.
Ainda neste domínio, focando atenções na USF de Anta: a associação de utentes local já se manifestou contra a mudança para a Ponte de Anta, bem como a Junta de Freguesia. Em que estado está o processo?
Este processo está a ser tratado com o cuidado que merece. A instabilidade política nacional não ajudou, mas não desistimos. Sabemos que mudanças geram ansiedade, e é natural que assim seja. As pessoas estão habituadas ao que conhecem. Mas estamos a trabalhar com a ARS para garantir que, se houver mudança, seja para melhor: melhores condições, melhor acessibilidade, melhor serviço. Nada será feito sem diálogo. As preocupações da população são legítimas e vamos respeitá-las.
No plano cultural, a Câmara tem sido acusada de apostar em iniciativas “de plástico”, passageiras, e de estar demasiado voltada para as grandes festas. No programa do PS, estava a intenção de reafirmar o FEST, o CINANIMA e o FIME como grandes eventos. Esse desígnio foi atingido?
Penso que será injusto chamar-lhe “cultura de plástico”. Aumentámos drasticamente o apoio ao CINANIMA, ao FEST e ao FIME – não só em dinheiro, mas em logística, em promoção, em carinho institucional. Mas a Cultura não são só os festivais de elite: é também o Carnaval que mobiliza a cidade inteira, são as festas populares que juntam gerações, são as residências artísticas, as bibliotecas, o apoio às associações locais.
Queremos uma Cultura que emociona toda a gente – desde quem aprecia cinema de autor, até quem se diverte nos arraiais. Inclusão cultural, não elitismo cultural. E os resultados estão à vista: Espinho nunca teve uma agenda cultural tão rica e diversificada.
Na habitação: a intervenção no Bloco F, na Ponte de Anta, foi lançada em dezembro de 2022. Entretanto, a obra estagnou. Quando se prevê a sua conclusão, e o que suscitou este atraso?
O Bloco F foi uma novela, confesso. Problemas com o empreiteiro, burocracias, renegociações… Mas não desistimos. A boa notícia é que já fizemos a receção provisória e parte das famílias já voltaram para casa. As restantes vão regressar em breve, assim que resolvermos os últimos detalhes.
Sei que foi um período difícil para aquelas famílias, mas preferimos fazer bem feito a fazer depressa e mal feito.
O chamado “Bairro das Famílias Pobres”, em Silvalde, o mais antigo do concelho, carece de intervenção. Por que razão nada foi pensado para este espaço? Há algo planeado para o futuro?
O “Bairro das Famílias Pobres” parte-me o coração. Famílias a viver em condições indignas há décadas… E porquê? Por imbróglios burocráticos, problemas de titularidade, papelada que nunca ninguém quis resolver. Já mandámos fazer o levantamento técnico e social completo.
Estamos a falar com o IHRU, com as Infraestruturas de Portugal, a ‘mexer os cordelinhos’ todos. Não é só reabilitar casas – é devolver dignidade a pessoas que a merecem. Vai demorar? Talvez. Vai ser fácil? Não. Mas vamos conseguir. Tenho a certeza. Aproveito também para adiantar que a situação do Bairro de Paramos está apenas a aguardar o visto do Tribunal de Contas para poder avançar.
Quando se prevê que a requalificação do antigo quartel dos Bombeiros, destinado a rendas controladas para a população mais jovem, possa estar habitável?
O antigo quartel dos Bombeiros vai ser a nossa resposta ao problema da habitação jovem. Rendas acessíveis no centro da cidade, o que era impensável há uns anos. Estamos a rever os projetos porque queremos fazer bem feito. O empréstimo com o IHRU está acordado, agora é pôr mãos à obra. Os jovens merecem uma oportunidade de viver em Espinho sem se endividarem para toda a vida. Este projeto vai fazer a diferença.
Qual é o feedback que vai recebendo, nas ações de rua e intervenções que vai fazendo? Sente-se apoiada? O que é que mais tem ouvido?
Diria que o feedback que tenho recebido tem sido muito bom. Desde o dia em que fiz o comunicado dizendo que me desvinculava do Partido Socialista, a 14 de fevereiro deste ano, tenho recebido uma onda de apoio enorme. Vou notando que o contentamento da população é crescente, e que me querem na rua.
Aliás, montes de vezes recebo mensagens a perguntar: ‘então, quando é que vamos para a rua?’. Trabalho há muitos anos em Espinho, as pessoas conhecem a minha capacidade de resolver.
As recentes tribulações noticiadas nos dois maiores partidos, PS e PSD, em torno da escolha dos seus candidatos, poderão beneficiar o aparecimento de uma candidatura independente como a que encabeça?
Acredito que sim mas, de qualquer maneira, com toda a franqueza lhe digo: nós não estamos preocupados com os partidos. As quezílias entre eles não nos afetam. Na minha visão, esta não é a hora dos partidos.
As eleições autárquicas são diferentes das legislativas: têm mais que ver com as pessoas. Sempre senti, desde os meus 18 anos, idade em que comecei a votar, que as autarquias são as pessoas, ponto final. Para mim, era importante identificar-me com o trabalho e com o percurso de cada uma delas.
Mas existirão eleitores fiéis aos respetivos partidos…
Sem dúvida que os há. Mas também acredito que a grande maioria do eleitorado votará em quem melhor o representar . A nível partidário, a política está de tal maneira frágil, que os movimentos independentes com pessoas sérias e trabalhadoras estão no caminho certo. E digo até mais: provavelmente conseguirão resultados bastante animadores em muitas autarquias deste país.
Recentemente, o Maré Viva realizou um trabalho de análise ao cumprimento do programa eleitoral sufragado pelo PS, em 2021. O que notámos é que, apesar da presidente ter dito, em Assembleia Municipal, que até estaria “a ir além” do proposto, apenas metade do mesmo terá sido cumprido/ou está em curso…
Já vi esse trabalho, chamaram-me à atenção para ele. Diria apenas que existe uma medida assinalada como ‘não cumprida’, no campo da Saúde, com a qual não concordo, mas também vocês não teriam forma de saber, já que a mesma ainda não foi devidamente divulgada. Achei imensa piada quando o PS me lançou certas acusações, a 16 de julho, porque de facto funcionam apenas como ‘tiros nos pés’.
Nessa Assembleia Municipal, aliás, nem precisei de me defender… Basta pensarmos que queriam chumbar um relatório de contas [o PS absteve-se] referente a um intervalo temporal em que desempenharam funções autárquicas. É vergonhoso. E quando se diz que eu não cumpri o programa, é outra vergonha.
Tinha vincado, e reforço isso, que até teria ido além do programado…
Sim, é um facto: vocês analisam que 50% foi cumprido, eu tinha dito que havia sido mais do que isso. Mas vou mais longe: o programa sufragado era mesmo muito ambicioso; não me parece que fosse para quatro anos, mas sim para oito. E só o facto de termos feito metade em dois anos, é realmente histórico.
Foi preciso arregaçar as mangas e trabalhar de manhã à noite. Realço que também acabamos por levar a cabo outras iniciativas, que até não estavam no programa, mas que se apresentaram como oportunidades, que não podíamos perder nem deixar passar.
Já assumiu o leme da candidatura independente “É por Espinho”, que conta com o apoio da atual vice-presidente Lurdes Rebelo, e também da vereadora Leonor Fonseca. Estamos habituados a ver listas em que as mulheres ocupam lugares quase ‘a régua e esquadro’. É para romper com esse paradigma?
Isso é algo que me incomoda muito: na política, como em outros aspetos da nossa sociedade, a mulher é vista quase como um adorno, uma decoração. A Associação de Futebol Popular do Concelho de Espinho teve, pela primeira vez, uma mulher à frente [Renata Malta], que sofreu bastante enquanto lá esteve, mas que conseguiu levar a coisa a bom porto, e foi respeitada.
A mulher é para cumprir a paridade, e ponto. E não deveria ser só isto; reconheço nas mulheres uma capacidade de resiliência, de se reinventarem, de assumirem desafios, que é uma coisa fantástica. As mulheres são, de facto, uma grande aposta minha. Mas teremos também candidatos no masculino, como é óbvio; e não deixo de ter uma grande admiração por todos aqueles que olham para nós, mulheres, como iguais. E sei que há muitos assim.
A intenção será a de concorrer a todas as juntas de freguesia do concelho, e também à Assembleia Municipal?
Sim, a todos os órgãos autárquicos.
Está a ser fácil esse processo de recrutamento de candidatos?
Há muita gente com um percurso de vida notável e com uma grande capacidade de trabalho que, infelizmente, não se quer envolver na política; não por falta de capacidade, mas porque não se querem sujeitar a verem a sua vida devassada, enxovalhada.
As pessoas não se apercebem, mas muitas das vezes, com certos comentários maldosos, acabam por atingir não só o político, mas também a sua própria família. É de uma cobardia inqualificável. E quando a política fica privada destas pessoas, torna-se menor, empobrecida.
Apesar de tudo isto, não tive dificuldades no recrutamento. Estou focada em apostar também nos jovens. Faz falta essa frescura, esse pensamento crítico. Aliás, a sua falta tem também contribuído, no meu entender, para a deterioração dos partidos.
Já reuniu as assinaturas necessárias à legitimação do movimento?
Sim, inclusive já as ultrapassei.
No final, o que é que fica? Estando certo de que as avaliações em causa própria são sempre complicadas, apelava à sua imparcialidade para lhe questionar o seguinte: na sua visão, o balanço geral deste mandato é positivo?
Diria que sim, que é positivo, apesar dos trambolhões e das traições. E a razão é muito simples: olho para o nosso território, e vejo que ele melhorou. Falo com o nosso tecido empresarial, e todos eles me dizem que a conjuntura é hoje mais favorável, que há mais pessoas a visitar Espinho.
Sei que nem sempre compreenderão os nossos gastos, mas também é importante que se saiba que recebemos verbas para a promoção do Turismo, por exemplo; e sem essa promoção, ninguém nos conhece. Todos os territórios vizinhos evoluíram…
Nos saudosos tempos da chamada ‘Rainha da Costa Verde’, as terras aqui ao lado praticamente não existiam. Nós temos de voltar a chamar as pessoas ao nosso território, mostrar o que de bom temos, o que nos distingue. E esse trabalho foi feito, não tenho dúvidas disso.
Mas também fica muito por fazer…
Fica, sim. Foram dois anos… É pouco tempo. Este mandato quase merecia ser dividido em dois. Se não fizemos tudo? Não, claro que não. E digo-lhe sinceramente: não conseguia fazer mais que o que fiz, nem as divisões da Câmara Municipal teriam capacidade para mais.
Já tive muitos desafios na minha vida, e esta foi mais uma batalha enorme. Há muita obra que não se vê; bem sei que, grande parte das vezes, as pessoas querem ver obra na rua. Mas esquecem-se que, para que a mesma aconteça, tem de existir toda uma retaguarda, que demora muito tempo a construir.
Trabalhamos bastante, apesar de tudo: do contexto, e das próprias críticas, que muitas vezes foram empoladas. Em jeito de remate final, repito: este mandato foi positivo, apesar de todas as traições de que fomos alvo.
Se não fizemos tudo? Não, claro que não. E digo-lhe sinceramente: não conseguia fazer mais que o que fiz, nem as divisões da Câmara Municipal teriam capacidade para mais.
- Maria Manuel Cruz, presidente da Câmara Municipal de Espinho
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