Uma esperança esperante…

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Padre Artur Pinto

O bem comum é o outro. Esta é a grande aportação do filósofo Emmanuel Lévinas ao pensamento filosófico contemporâneo. Sem o outro é impossível o “eu”. O outro dá-me a mim mesmo. Segundo os críticos deste pensador, há uma certa absolutização do outro, que nos faz ficar reféns dele. Contudo, não há esperança sem um sentido e só o outro pode oferecer esse sentido à pessoa humano. É o único que faz com que o “eu” saia de si. Sai para ir ao encontro do outro, não para possuir ou dominar — como acontece com o resto do mundo natural, orientado pelo instinto de posse — , mas para o encontro gratuito.

O outro é, portanto, a possibilidade da gratuidade e o Totalmente Outro – em linguagem mais comum, Deus – é essa pura gratuidade que possibilita que o outro seja sempre outro, mantenha a sua alteridade, sem qualquer forma de apropriação. Só o Totalmente Outro é o garante do bem comum. Sem este Outro, torna-se impossível sustentar algo verdadeiramente comum, pois perderíamos a referência a uma identidade e dignidade compartilhadas — o que, na fé cristã, se chama a dignidade dos filhos de Deus.

Segundo o Papa Francisco, na Encíclica Laudato Si, o bem comum é “a soma daquelas condições de vida social que permitem a todos os grupos e a cada pessoa alcançar com relativa prontidão a sua realização.” Dito por outras palavras, o bem comum é algo inerente à dignidade da pessoa. É esta dignidade que me obriga a cuidar do outro, nunca a instrumentalizá-lo. Já na Encíclica Fratelli Tuti, o Papa Francisco propõe a “cultura do encontro” como caminho para superar a indiferença, a exclusão e os interesses individuais, na demanda de uma sociedade mais justa e solidária, da qual depende a paz social. Nesta Encíclica, o Papa propõe que se pense o progresso tecnológico à luz do bem comum, caso contrário os seus benefícios continuarão a alcançar apenas alguns.“

Uma sociedade que deixe alguém para trás não se pode chamar de Cristã”, segundo o Papa Leão XIV, na Exortação Apostólica Dilexi Te. Esta forma de pensar é mais real do que nos parece à primeira vista. Muito mais do que a utopia moderna, inerente ao desenvolvimento científico e tecnológico, que se propõe alcançar um mundo perfeito como consequência desse desenvolvimento. Por vezes, correndo o risco de entregar as decisões éticas sobre a vida ao que a tecnologia e a ciência alcançam, quando deveriam ser orientadas pela dignidade humana. Contudo, como verificamos e a história nos ensina, nem tudo o que a ciência alcança tem como objetivo o bem de todos nem os métodos usados pressupõem a dignidade humana — como exemplificam as experiências médicas nos campos de concentração nazis e japoneses, ou a criação da bomba atómica.

Esperança e bem comum implicam-se. Este “ lugar bom” é o que todos procuramos. Só que isto é mais do que um processo político, implica o Evangelho, a grande notícia que Jesus nos trouxe, o Deus amor

A utopia bíblica, por sua vez, abre-nos para uma esperança bem diferente, porque propõe o sem lugar da cruz, como um lugar bom, fazendo-nos passar do u-topos (sem lugar) para o eu-topos (lugar bom). A cruz é o lugar distópico por excelência que, vivido como Cristo viveu, transforma-se no lugar onde todo o mal é transformado pelo amor, a gratuidade pura, no lugar bom. É o lugar do perdão e do pão. O que mais precisamos para viver. Por isso, afirma o Pão Leão XIV, na Exortação Apostólica DIlexi Te, uma Igreja que ama como Cristo amou será sempre casa aberta, mesa partilhada e caminho de esperança para todos.

Esperança e bem comum implicam-se. Este “ lugar bom” é o que todos procuramos. Só que isto é mais do que um processo político, implica o Evangelho, a grande notícia que Jesus nos trouxe, o Deus amor. Já os profetas de Israel tinham alertado para a justiça social, como é o caso do profeta Amós. Numa tentativa de trazer justiça ao mundo, o marxismo limitou as liberdades para conseguir a igualdade, só que esta não acontece por decreto, muito menos sem pensar na fraternidade. O Papa Francisco também nos falou muitas vezes da “ditadura de uma economia que mata”, estruturada para favorecer poucos enquanto promete que gotas de riqueza escorrerão para os muitos. Na Tirania do Mérito, M. Sandel denuncia como o sistema económico atual está viciado e reproduz continuamente pobreza e exclusão.

A esperança esperante da condição humana não é orientada nem por leis nem pela ciência, mas pela bondade que lhe é intrínseca. Só o amor é capaz de converter os corações à verdadeira fraternidade, fundada na partilha. Apenas a experiência real de partilhar pode fazer com que os corações sonhem com uma mesa comum, para todos, como nos anuncia o profeta Isaias. Só Deus é o garante último do bem comum, porque ama cada pessoa e, nesse amor, nos chamou à vida e nos chama a viver para que todos vivam plenamente. E a esperança não nos engana, porque está fundada neste amor que se sacrifica para salvar o outro — um amor que não procura salvar-se a si mesmo. Enquanto existir uma pessoa que procura a fraternidade, que a sente como vocação humana, por isso sacrifica o seu próprio “euzinho possessivo e dominador” para dar vida ao outro, proporcionando-lhe melhores condições de vida, o bem comum é possível. Em cada gesto de partilha reside uma semente de esperança.

Esta é a base do bem comum… esta é a nossa esperança.