Tudo o que podemos dizer

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Márcio Laranjeira

Cineasta espinhense, que tem navegado por diferentes formatos na arte visual de contar histórias

Estou a escrever um guião intitulado Tudo o Que Podíamos Ter Feito. É sobre uma família que se confronta com a evidência do desaparecimento de um dos seus, a ti-Lena. Ela foi embora porque quis, mas também porque já não era ouvida. Agora, com todos reunidos, percebe-se que só poderão fazer alguma coisa se assumirem, com honestidade, que não fizeram tudo o que podiam ter feito — e que quase ninguém faz. É esse o ponto de partida do filme e, de certa forma, também desta reflexão.

Vivemos tempos em que temos bem delineados os nossos deveres e obrigações, e é perante estes que respondemos. Não perante a responsabilidade maior, mais inquietante, que o apelo do Outro nos traz quando nos move a fazer não o que devemos, mas o que podemos. Aí já não se trata do que está mapeado: trata-se do que está para lá da obrigação, desse espaço onde o gesto nada devolve em troca — a não ser a consciência de participarmos, mesmo que por instantes, num bem comum que não possuímos. E se há um lugar onde ainda pode residir esperança, é precisamente nesse espaço partilhado. É para ele que podemos tender, se quisermos traçar esse caminho.

Nunca fazemos “tudo o que podíamos ter feito”. E, quando o dizemos, sabemos, no nosso íntimo, o que omitimos. Quando fazemos apenas “a nossa obrigação”, deixamos parte dela por cumprir, e tudo fica como estava. Para que exista verdadeira transformação, é preciso ir além do dever; é preciso fazer o que podemos. E o que podemos não finda, não cabe numa lista, não se esgota na sensação de dever cumprido. É um horizonte que se reabre.

Estamos assustadoramente virados para nós próprios. O nosso mundo tornou-se pequeno, estreitado por algoritmos que nos devolvem versões polidas do que já pensamos, impedindo o encontro com outros mundos e outras realidades. É esse Outro que incomoda, desinstala e obriga a ver de novo. Quando deixamos de ser expostos ao que nos ultrapassa, deixamos também de perceber o que está à nossa volta. Só o Amor — essa besta emocional que não negocia — nos apanha de surpresa, arrastando-nos para um Outro que não compreendemos, não possuímos (por mais que tentemos), mas a quem queremos dar. Mesmo quando nada recebemos.

É nesta medida que podemos fazer um pouco mais por quem está à nossa volta: ajudar um turista perdido; abrigar alguém que precisa de sair de casa; abrir o carro num dia de chuva para um arrumador; levar uma refeição quente ao sem-abrigo do prédio; acompanhar uma amiga com depressão e tratá-la melhor do que ela se trata; levar alguém de um lar a passear; passar tempo com quem está a morrer; não abandonar quem se ama; não abandonar quem nos abandonou. São gestos pequenos, mas capazes de impedir que o mundo colapse.

Estamos assustadoramente virados para nós próprios. O nosso mundo tornou-se pequeno, estreitado por algoritmos que nos devolvem versões polidas do que já pensamos

Esta semana, a ir para Lisboa, parei na estação de serviço de Ovar para encher os pneus, num dia difícil. Uma avaria fez com que, em vez de encher, esvaziasse o da frente, e fiquei apeado. Um motorista que ali parou tinha meia hora para descansar, mas dedicou-me todo o seu tempo — e um pouco mais. Quis garantir que eu saía dali sem precisar de nada. Aquele homem, ao seu jeito, foi um anjo, apesar dos defeitos que lhe vi e não nomeio. Naquele momento, o bem comum tinha um rosto, uma voz, um gesto que não pedi, mas recebi.

Acaba de passar na RTP1 e na RTP Play a minha minissérie Casa-Abrigo. Uma minissérie tem um propósito de entretenimento; não se financia a “boa causa”. Mas pode trabalhar-se com responsabilidade social. Isso tem chegado através de mensagens de mulheres sobreviventes de violência doméstica que se sentiram reconhecidas, dignificadas, e que me escreveram a dizer que ver a série “cura”. Não a fiz para curar. Fiz para que quem estivesse em casa soubesse quem são estas mulheres e pudesse rever-se nelas. E fui cuidadoso: aproximei-me do mundo do Outro para que fosse ele a falar através de mim. Durante dois anos li apenas autoras — sobre o tema e sobre o simples e complexo facto de ser mulher. Afinal, estava a escrever sobre ser mulher. Não apenas sobre ser vítima. Isso, infelizmente, sei o que é.

Agora, com Tudo o Que Podíamos Ter Feito, escrevo sobre uma mulher que partiu porque não era ouvida e sobre uma família de operários deixada para trás: por ela, pelas fábricas, por nós que tão raramente os representamos no teatro, no cinema, na literatura. Mas ao ir-se embora, ela abriu um lugar — um espaço que não existia antes, um vazio que obriga a olhar, a escutar, a tentar outra vez. E enquanto houver quem abra esse lugar, mesmo pela ausência, haverá sempre a possibilidade de recomeçar. Haverá sempre a hipótese, pequena, mas real, de fazermos finalmente aquilo que podíamos ter feito. E é talvez nesse pouco — nesse resto que ainda podemos — que reside, hoje, aquilo a que ainda ousamos chamar esperança.