Editorial do suplemento de 10 de dezembro de 2025
Há expressões que parecem resistir ao desgaste do tempo, mas apenas porque aprendemos a repeti-las sem grande convicção. A do “bem comum” é uma delas. Paira como uma memória herdada, uma espécie de relíquia moral, que está sempre lá, mas raramente paramos para pensar e refletir sobre o que significa isso hoje, sobretudo num tempo em que, maioritariamente, agimos na lógica do cálculo individual.
Talvez por isso valha a pena regressar a esta ideia com inquietação: o que é, afinal, o bem comum? Existe para lá das intenções e dos discursos proferidos? Ou sobrevive apenas nos intervalos, nos gestos anónimos e nos pequenos desvios que fazemos na pressa do dia para ajudar quem ou o que não é “nosso”, mas é de “todos”? Ainda acreditamos nisso?
As perguntas talvez incomodem porque trazem um paradoxo contemporâneo: vivemos rodeados de narrativas que nos dizem para sermos autónomos, competitivos, resilientes. Há cada vez mais fronteiras, filtros, algoritmos, saberes e dizeres que nos devolvem ao centro do “eu” individual, como se o Mundo se reorganizasse para confirmar que cada um de nós está, de facto, por sua conta. Acresce a isso o facto de assistirmos à erosão dos espaços onde a condição humana se pratica em conjunto: nos cafés, nas vizinhanças, nos espaços públicos que deixaram de convidar ao encontro, nas associações que rareiam, nas escolas e locais de trabalho absorvidos pela “espuma dos dias”…
No entanto, contra esta corrente, há algo que insiste em permanecer, como se fosse uma pedra que se encontra a meio do percurso de um rio. É uma espécie de pulsação subterrânea, por vezes, até escondida, que nos aproxima quando tudo parece empurrar-nos para longe. É disso que parte este suplemento: da convicção – talvez ingénua – de que a esperança no bem comum não desapareceu. Pode estar ferida, silenciada, deslocada; pode ter perdido a inocência, mas não perdeu o seu fôlego. Continua a manifestar-se nos lugares aparentemente menores: num centro comunitário, na Arte que interroga o Mundo, no cuidado que se partilha sem pedir nada em troca, na comunidade que ajuda a reerguer quando alguém cai.
Não se tratam de grandes doutrinas nem de discursos inflamados. Não é sequer uma novidade. É a perceção, profundamente humana, de que viver sozinho é uma impossibilidade. É o facto de sabermos (mesmo quando evitamos dizê-lo) que algo em nós depende dos outros. Não por romantismo, mas por condição humana.
E, por isso, a solidariedade, a entreajuda e, claro, o bem comum residem onde sempre estiveram: no terreno imperfeito da convivência, no encontro das fragilidades e no reconhecimento de que a dignidade nunca foi um projeto individual. Tudo isto mora na teimosa rejeição de aceitar que o cinismo é a forma mais adulta de olhar o Mundo.
Este suplemento nasce, por isso, de uma pergunta simples e exigente: como se pode continuar a acreditar no bem comum num tempo que desconfia tanto do coletivo?
Não apresentamos respostas definitivas. Partilhamos perspetivas que respiram, que incomodam, que inspiram e que revelam o que ainda se move. Damos a conhecer uma coletânea de textos – escrita por diferentes intervenientes da região – que escreveram sem medo, que imaginam sem garantias, que recuperam a coragem de sonhar com a pluralidade e o coletivo.
Se a esperança tem alguma utilidade (e acreditamos que tem) é para nos lembrar que a promessa de que tudo ficará bem vale pouco comparativamente à certeza de que o futuro só importa se for de todos. Cuidemos do “nós”.
Boas leituras.
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