Presidente da direção da Casa dos Choupos - Cooperativa Multissectorial de Solidariedade Social, CRL.
Vivemos tempos de desgaste — um cansaço que nasce da fragmentação, da velocidade, da sensação de que cada gesto individual se perde em ruídos sem ecos. E, no entanto, é precisamente nesses intervalos de desânimo que o bem-comum ganha corpo: não como ideia abstrata, mas como prática concreta, silenciosa e persistente. É o que acontece, todos os dias, na Cooperativa Casa dos Choupos. Talvez porque, mesmo quando tudo parece chamar-nos à competição, ao ritmo e ao isolamento, persiste em nós uma memória profunda: a de que a vida só brilha, quando é partilhada. E respeitada.
A Casa dos Choupos não nasceu de uma teoria sobre o mundo, mas de um gesto de cuidado. Ao longo do tempo, transformou-se num território de encontro: um espaço onde as pessoas se reconhecem umas nas outras, onde o trabalho coletivo se faz de compromisso e de afeto. Seja numa iniciativa cultural, numa resposta social, num atendimento ou simplesmente num convívio à volta de uma mesa, cultiva-se a convicção de que ninguém se realiza sozinho. A Casa é, por isso, mais do que uma instituição — é uma forma de estar, uma casa aberta ao comum. Falar de bem-comum, a partir desta experiência, é falar de relações. De laços que não se impõem, mas que se constroem.
De uma economia da proximidade que valoriza o encontro mais do que o resultado, a partilha mais do que a propriedade. O bem-comum não é a soma dos interesses individuais, mas o espaço que se cria entre nós — um espaço habitado por responsabilidade, imaginação e cuidado.
Também é criação. Porque cooperar é inventar juntos; é imaginar novas formas de estar e de agir que não se deixam aprisionar pela lógica da escassez ou do medo. Há algo de profundamente criativo em cada gesto de solidariedade: uma recusa em aceitar o mundo como ele é, um impulso para o refazer a partir da relação com o outro. Essa criatividade social é, talvez, a força mais resistente do bem-comum. O bem-comum é, afinal, a arte de transformar o “eu” em “nós” sem que ninguém fique esquecido. É a consciência de que o futuro — esse território tantas vezes adiado — começa aqui, no modo como cuidamos uns dos outros. É resistência, sim, mas também promessa: a promessa de que ainda é possível fazer comunidade em tempos de dispersão, de que ainda podemos sonhar coletivamente sem ingenuidade.
O bem-comum não é a soma dos interesses individuais, mas o espaço que se cria entre nós — um espaço habitado por responsabilidade, imaginação e cuidado
Na Casa dos Choupos, essa promessa renova-se diariamente. Nos gestos pequenos, nas conversas demoradas, na convicção de que a solidariedade não é uma palavra bonita, mas um modo empático de se estar no mundo. A cooperação vive dessa atenção aos detalhes, desse tempo partilhado que desafia a pressa e o esquecimento, privilegiando o respeito e a escuta. É uma pedagogia do comum: aprender a ver, a escutar e a agir juntos. Não será isso, afinal, o que nos mantém vivos? O desejo de reencontrar o outro e, com ele, o sentido. A esperança que nasce do encontro, a coragem de continuar a imaginar o que pode ser vivido em conjunto. Porque, enquanto houver quem sonhe e aja coletivamente, o bem-comum continuará a ser possível.
E haverá sempre uma Casa onde o futuro começa todos os dias outra vez.
A Casa dos Choupos - Cooperativa Multissectorial de Solidariedade Social, CRL foi fundada em 2008 no concelho de Santa Maria da Feira.
Tem como missão estruturar e implementar respostas à medida para a resolução de necessidades e problemas sociais, fomentando o progresso e a sustentabilidade de forma integrada, inovadora e diferenciada.
Promove ações e iniciativas com propósito de facilitar o acesso de pessoas ao mercado de trabalho e dinamiza um conjunto de atividades e iniciativas focadas em três áreas-chave: artística, cultural e ambiental desenvolvidas na sede da Casa dos Choupos. As atividades procuram complementar, reforçar e articular com os serviços públicos pertinentes para a prossecução de respostas em diferentes áreas, e para pessoas em diferentes situações de vulnerabilidade.
A sua dinamização é pautada por uma relação dinâmica, próxima e alinhada com os parceiros dos Fóruns Sociais de Freguesia e de articulação com os serviços públicos, centrado na área do apoio social, da saúde e do emprego.Além disso, possui um conjunto de respos-tas em articulação com os SAAS (Serviços de Atendimento e Acompanhamento Social) e com a rede social concelhia, que pretendem atenuar as consequências da diminuição de rendimentos familiares e complementar as medidas de política social existentes no concelho feirense.
A Casa dos Choupos dinamiza também ações de sensibilização, intervenção e apoio técnico em prol da diversidade social e pelos direitos humanos, concorrendo para a Estratégia Nacional para a Igualdade e Não Discriminação.
INFO
ARQUIVO
LOCALIZAÇÃO & CONTACTOS
@ 2026 Maré Viva – Jornal Regional de Espinho
Made by CircleTec.
Para proporcionar as melhores experiências, utilizamos tecnologias como cookies para armazenar e/ou aceder a informações do dispositivo. Ao consentir com estas tecnologias, permite-nos processar dados, como o comportamento de navegação ou ID's exclusivos neste site. O não consentimento ou a sua retirada pode afetar negativamente certos recursos e funcionalidades.