Por Dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal é o mais recente livro do jornalista Miguel Carvalho e foi apresentado na passada sexta-feira, 3 de outubro, na Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva. A obra trata-se de uma investigação jornalística que recorre a “milhares de documentos inéditos” e “dezenas de entrevistas” que fazem um raio-X ao percurso e às engrenagens do partido liderado por André Ventura. Ao longo de 752 páginas, é apresentado um retrato detalhado de um movimento que prometeu regenerar a política portuguesa, mas que, nas palavras do autor, “reproduz muitos dos vícios da política tradicional”.
Miguel Carvalho, jornalista com mais de três décadas de carreira, partiu para este projeto com apenas uma certeza: queria contar a história do fenómeno político e menos a do seu líder. A construção do livro seguiu, então, o ritmo de uma investigação paciente. O processo foi “lento” e por vezes “caótico”, admite.
“Nunca cedi à tentação da espuma dos dias e organizei-me no sentido de ir preenchendo peças do puzzle através de entrevistas e documentos a que fui tendo acesso”, explica o jornalista.
Durante meses recolheu depoimentos e documentos para compor um retrato plural do partido, dando voz a militantes, dissidentes e dirigentes do Chega, e para revelar o modo como o partido cresceu, se organizou e consolidou influência. Para isso, Miguel Carvalho assistiu também a “todas as ações e eventos” do Chega para perceber “o ambiente, os contrastes e conquistar fontes”.
“Algumas pessoas confiaram desde o início, outras vieram com o tempo. A verdade é que, independentemente do seu grau de adesão, de militância e de responsabilidade, a maioria das pessoas do Chega respeitou o meu trabalho e a pessoa que eu sou”, nota.
Jornalismo e militância democrática
Ainda assim, reconhece que “alguns dos principais dirigentes” não viram o seu trabalho com bons olhos, mas é importante não confundir o “aparelho de topo do partido” com “o grosso dos seus membros ou apoiantes”.
Miguel Carvalho rejeita a ideia de que o livro possa ser visto como qualquer tipo de militância. Ao longo de 35 anos de carreira, já foi “criticado por todos os partidos” e encara isso como um sinal positivo:
“É sinal de que talvez esteja a fazer alguma coisa bem… Se fosse militância partidária, nunca conseguiria o respeito e a colaboração de centenas de apoiantes ou dissidentes do Chega. Alguns falam pela primeira vez neste livro. E eu nunca cedi à tentação de os diabolizar”.
Este livro é jornalismo, com a maior profundidade e contraste que pude alcançar. A minha militância é neste ofício
- Miguel Carvalho
Retrato de um paradoxo
Uma das teses principais que Miguel Carvalho aborda no livro é a de que o Chega, apesar da retórica antissistema, reproduz precisamente os mesmos comportamentos que dizia combater. O autor nota que os casos polémicos no Chega acontecem “a um ritmo quase quotidiano” com “fraudes fiscais, roubo de malas, prostituição de menores, etc.”.
“Para um partido tão novo e que nasceu a prometer uma regeneração moral e ética da política, incluindo uma propalada Quarta República, não é o melhor cartão de visita”, observa.
Além disso, Miguel Carvalho entende que os mecanismos de controlo interno e os “filtros prometidos” por André Ventura para combater a entrada de “pessoas pouco recomendáveis” nunca foram aplicados ou, no mínimo, não funcionam – e as notícias recentes sobre candidatos autárquicos são, para o jornalista, prova disso mesmo.
Outro dos eixos da investigação passa pelo financiamento e pelas ligações internacionais do partido. Miguel Carvalho revela que “há depoimentos de antigos dirigentes a descrever práticas de financiamento ilegal” – algumas das quais também identificadas pela Entidade de Contas do Tribunal Constitucional.
Quanto às ligações externas, o autor aponta o “Brasil bolsonarista”, a Hungria de Viktor Orbán e o vizinho “Vox” como principais referências e aliados. “Os recursos são canalizados para parcerias, eventos, institutos que promovem debates com figuras de extrema-direita… Se há algo mais, não sei. Mas as pistas e as práticas existentes deixam essa possibilidade em aberto”, refere.
Recrutamento dos mais jovens
Um dos capítulos do livro que o jornal Público, entretanto, publicou (“Como é que o Chega está a recrutar futuros votantes”) analisa o modo como este partido se dirige aos jovens e interage com eles. Em suma, Miguel Carvalho descreve uma estratégia simples, mas eficaz: o uso de linguagem agressiva, a utilização intensiva das redes sociais e a simplificação extrema do discurso político.
Também poder-se-ia pensar que a adesão dos jovens à ideologia propalada pelo Chega é justificada por frustrações relativas a temas sensíveis, como o emprego, a habitação, e a falta de perspetivas de futuro. Contudo, o autor nota que “por vezes” isso nem nasce de uma frustração:
“Nasce apenas de uma narrativa folclórica, assanhada, provocadora e disruptiva no pior sentido nas redes sociais, em muitos casos alimentada com falsidades e desinformação pura. Num contexto de baixa ou nula literacia mediática, as narrativas do Chega, sem escrutínio nem complexidade, são faca na manteiga”.
Contributos para o debate democrático
O lançamento de Por Dentro do Chega coincide com um momento de visibilidade do partido no Parlamento e às portas das eleições autárquicas. Miguel Carvalho acredita que a sua obra pode contribuir para a reflexão democrática, ainda que mantenha um certo ceticismo.
“Não tenho ilusões quanto à influência que um livro pode ter em Portugal, infelizmente. Mas o facto de já ir na quinta edição em menos de um mês mostra que há muita gente que procura aprofundar conhecimentos e adquirir instrumentos para melhor defender conquistas da democracia que, temem, podem estar em risco”.
Por Dentro do Chega
Autoria: Miguel Carvalho
Editora: Objectiva
Preço: 20,95€
752 págs.
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O cavalgar da extrema-direita
A poucos dias das eleições autárquicas, Miguel Carvalho é prudente na análise, mas reconhece que é “altamente provável” que o Chega conquiste “um resultado muito interessante” para os seus objetivos. “O que fará com isso é mais duvidoso. Se ganhar câmaras, mas perder uma fatia importante do eleitorado que conquistou nas legislativas, é difícil que isso não seja visto internamente como sinal de alarme”, analisa.
Ainda que o partido de André Ventura possa conquistar resultados expressivos, existem dificuldades que Miguel Carvalho aponta na gestão do poder local: “Se o Chega ganhar câmaras com certo peso, ficará rapidamente à vista a sua gritante falta de gente idónea, capaz e confiável”.
É que André Ventura, explica o jornalista, “nunca promoveu a qualidade à sua volta”. “Preferiu a fidelidade, em muitos casos, canina. Muitos dos seus próximos são pessoas dependentes das funções políticas que ocupam”, acrescenta.
No plano internacional, Miguel Carvalho identifica condições favoráveis ao crescimento dos movimentos populistas e de extrema-direita, uma vez que a maioria dos povos “tem quotidianos fragilizados” e marcados por “muita insegurança e perspectivas de futuro sem esperança”.
“As narrativas populistas aproveitam-se disso da pior maneira: colocam o pobre contra o pobre, promovem o individualismo mais primário, a desconfiança do outro, o preconceito. A sobrevivência do populismo funda-se no ódio e numa moral que só se aplica aos outros. Daí até muitos acreditarem num salvador, é um instante. Basta ler o que se passou na Primeira República e na instauração da ditadura. Se descontarmos as armas digitais deste tempo e o caldo cultural e político dos protagonistas da altura, temos muito a aprender com essa época”, conclui.