Membro da equipa do “Dois Dados de Conversa”
A secularização e o foco no indivíduo, pilares da civilização ocidental, contribuíram para a perda de influência das comunidades, religiosas ou não, e o exacerbar de um individualismo egoísta, que se recusa a servir o outro e a privilegiar o bem comum.
O online impôs a supremacia do distante sobre o próximo. A pandemia fechou-nos em casa e tornou-nos mais desconfiados e ansiosos. E ainda mais distantes. Cinco anos depois, as redes sociais continuam a manter-nos colados aos ecrãs e a tirar-nos tempo valioso de interação pessoal.
Sofremos de isolamento, de solidão, de relações frágeis, superficiais, baseadas em likes que substituem partilhas reais. Mas às vezes basta juntar uns amigos e chamar mais amigos para fazer o que se gosta e com pouco criamos comunidade. Nesse sentido, nada melhor do que o fazer à volta de uma das mais antigas atividades recreativas – o jogo. Embora pareçam modernos, os jogos de tabuleiro existem há milhares de anos. São uma forma lúdica e interativa de exercitar os desafios da vida real: celebrar vitórias, aceitar derrotas, planear estratégias, calcular riscos, trabalhar a cooperação, e lidar com a frustração. Ajudam crianças e adultos a reforçar o autocontrolo, a paciência, a memória e a concentração. São brincar, são diversão e descontração.
Precisamos de comunidade, sim, e criar comunidade pode partir de nós
Ainda que muitas vezes competitivos, os jogos de tabuleiro estão profundamente ligados à ideia de bem comum. Enquanto um videojogo nos limita ao que foi programado, um jogo analógico só existe porque todos, mesmo querendo vencer, concordam com as regras. Como afirma Reiner Knizia, lendário designer de jogos: “O objetivo de jogar é ganhar, mas o mais importante é o objetivo, não a vitória”. Um jogador poderia, a qualquer momento, avançar ilegalmente o seu marcador de pontuação. No instante em que o faz, a simulação desfaz-se. O bem comum é sacrificado ao individual, e, no fundo, ninguém sai contente.
Quando nos entregamos a estas dinâmicas, cultivamos o raciocínio, aprendemos História, Ciência, Geografia, entre outros. Ao mesmo tempo somos confrontados com situações e realidades sobre as quais apenas temos vagas ideias. Por exemplo, em Votes for Women, somos colocados no papel dos movimentos sufragistas que conquistaram o direito ao voto para as mulheres nos EUA. Partilhamos estas vivências, saindo da mesa com uma experiência única com as pessoas com quem jogamos. Sim, a maior parte das vezes no fim é determinado um vencedor, mas se todos nos dedicarmos verdadeiramente ao bem comum, todos saem a ganhar.
É sobre estas ideias que surge o grupo “Dois Dados de Conversa”. Um grupo livre, aberto e gratuito onde todos se juntam à volta das mesas e durante umas horas abdicam do individual para um bem comum – o prazer de colaborativamente criar uma experiência, no fundo uma simulação, daquilo que o jogo, através das suas regras, nos convida a experimentar.
Nos encontros do Dois Dados de Conversa aparecem famílias, casais, amigos. Já estendemos também a iniciativa à comunidade do Centro Comunitário da Ponte de Anta, onde trabalhamos com crianças e adolescentes estas noções de bem comum, estratégia, planeamento e diversão.
Precisamos de comunidade, sim, e criar comunidade pode partir de nós.
Pensar o bem comum, servir o outro e imaginar o futuro podem por vezes exigir algum sacrifício e desconforto (essenciais para construir carácter e resiliência), mas deixam um legado e dão propósito e sentido à vida.
Aos leitores do Maré Viva deixamos o desafio: nestas festas desliguem os ecrãs e juntem-se aos nossos encontros. Se não puderem, joguem na mesma com a família e os amigos. Os jogos de tabuleiro evoluíram muito nos últimos anos. Os clássicos mantêm-se, mas diversificam-se as dinâmicas de construção e exploração, e aumenta também a complexidade. Há por isso jogos para todos os gostos. Para os mais estrategas, o Concordia transporta-nos aos tempos do Império Romano, onde gerimos recursos e expandimos influência, sem perder a capacidade de improviso nas mudanças de circunstâncias. No Pandemic formamos uma equipa para salvar o planeta de uma pandemia. Para os mais aficionados do cinema, há jogos como o Jaws, em que recriamos os eventos do filme, onde um jogador é o tubarão e os outros formam equipa para o deter.
Enfim, as possibilidades são infinitas e por isso de uma coisa temos a certeza – há um jogo de tabuleiro para todos.
INFO
ARQUIVO
LOCALIZAÇÃO & CONTACTOS
@ 2026 Maré Viva – Jornal Regional de Espinho
Made by CircleTec.
Para proporcionar as melhores experiências, utilizamos tecnologias como cookies para armazenar e/ou aceder a informações do dispositivo. Ao consentir com estas tecnologias, permite-nos processar dados, como o comportamento de navegação ou ID's exclusivos neste site. O não consentimento ou a sua retirada pode afetar negativamente certos recursos e funcionalidades.