Herdar as Ruínas Comuns: Em Que Não-Lugares Nascerá a Revolução?

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Lécio Dias

Ao prof. C.J.: Que me ensina que a grandeza do pensamento reside na capacidade de o entregar a tantos quanto possível. Eis um exercício dessa aprendizagem.

Devo atentar contra o início? Fragmentar a expectativa do leitor, trespassando o objetivo negativo do texto: a leitura? Digo-o porque me seria fácil iniciá-lo com provocações intelectuais e apontar à visceralidade das circunstâncias: pós-crise, pós-capitalismo, pós-digital, etc., etc. Enfim, não é que me apeteça abstrair do que lhe devo, mas permita-me ser franco: discutir a ação revolucionária não é partir do zero. Há ruínas, sabe? Uma fragmentação convicta que, as mais das vezes, é tida por individualista, egoísta, pós, pós, pós-pessimista.

Não me convence… e a si? Analisar a ociosidade do ato humano como se fosse escolha viver assim, ruinosamente. Há, de facto, a responsabilidade histórica. O desequilíbrio entre a memória e o esquecimento, ambos extremamente necessários para o avanço comunitário, originou algo que, ao contrário do que dizem, não foi premeditado. É preciso lidar com isso, mas como?

Marc Augé, antropólogo, definiu os “não-lugares” como espaços de transição sem identidade, história ou autenticidade relacional, onde as pessoas circulam, coexistem, mas sem construírem um sentido de pertença. Enquanto espaços funcionais e descartáveis, dedicados à (re)produção de anonimato, efémeros por excelência, são absolutamente contrários às perspetivas agregadoras que permitem a assunção da massa coletiva rumo à prática revolucionária. Exemplifico, para evitar o abstracionismo: supermercados, centros comerciais, arenas de espetáculo, aeroportos, mas também o Facebook, o Instagram, o Youtube, entre outros. O paradoxo concentra-se não na ausência de privacidade, mas sim na exposição pública para constrangimento próprio da individualidade que se afigura intransponível.

Perante a inversão do abismo, pergunte-se: Onde está o lugar? Aqui, o “onde” da revolução ultrapassa os aspetos teóricos para se converter numa questão de sobrevivência política. Uma vez que o comum se constringe nos espaços que deviam (re)produzi-lo, a resposta não se esconde por detrás do revivalismo do lugar, enquanto espaço nostalgicamente perdido no decurso da profanação da autenticidade. Paradoxalmente, existe na reapropriação subversiva dos não-lugares em si. As ruínas pressupõem a existência de um terreno. Árido ou fértil, pouco importa. Plante onde estiver.

Novamente, a abstração. O leitor importa-se? Pois bem, quando falo em reapropriação subversiva, não me refiro à coação ou ao exercício violento de me contrariar nos outros. Falo da saudação ao entrar no café, de ceder a posição na fila a quem corre o risco de perder o voo, do beijo em público, da partilha e do comentário livre de perversões, utilizar o pisca à saída da rotunda. Antes de invadir os meandros do mal, há que ver germinar o bem.

Não chega ver no silêncio, na ordem e na rotina o carácter orientador da comunidade. Não fazer é agir

Confesso-me pouco universalista. A solução não é genérica. A microética do quotidiano é um exercício que, por vezes, custa a sanidade; mas é exatamente aí que reside o aspeto disruptivo da ação. Não falo de paz perpétua, mas sim de conflito permanente. O não-lugar comporta o carácter pacifista que devemos combater. A suspensão do direito à recusa de ser e estar individualmente presente em todo o lugar é um trunfo enigmático para o propósito organizador da ação. Não basta estar performativamente presente nas manifestações e nas arruadas: é preciso ter-se, consciente e intencionalmente, presença na parte.

Não chega ver no silêncio, na ordem e na rotina o carácter orientador da comunidade. Não fazer é agir. Contrariamente às provações de grandeza, o fundamento encontra-se na empática resolução do caos ordeiro. A conquista da dormência coletiva deve fundar-se na dignificação oportuna do próximo. E não me refiro à proximidade cristã, mas sim à dimensão material da coexistência. Sem que a aproximação seja servil ao (não) lugar, é preciso fortificar-se a última parede em queda. Olhe que o teto – uma metáfora classista – fica por cima, não em frente.

O não-lugar acolhe uma contradição fundacional que toma a atomização como um gesto caótico destinado a atribuir ordem e controlo a algo que nos ultrapassa. Assim, se o átomo é o princípio da resistência, a revolução incide sobre o ritmo molecular do movimento uno. Escrevi, outrora, que “o corpo é uma nação em guerra”. O conflito interno reside na proximidade entre iguais que circulam, transeuntes, por entre não-lugares.

Só me resta questionar: E em si, leitor? Onde nascerá revolução que não seja a guerra que mantém nessa nação que governa? A aceitação da humanidade é reformista, mas só a humanização é revolucionária.

Lécio Dias

Advogado. Mestre em Ciências Jurídico-Forenses e Pós-Graduado em Direito da União Europeia (UC). Doutorando em Ciência Política pela Universidade da Beira Interior e Universidade de Aveiro. Escritor e editor. Para o encontrar, procura pelo jovem de livro na mão e algo levará. Apaixonado pelas vicissitudes da vida. É Firgun nas horas vagas.