Tradutora e audiodescritora
Fala-se muito em interesses individuais, pouco em interesses coletivos e quase nada em bem comum. O termo parece antiquado, mas continua a ser uma chave essencial para compreender o tipo de sociedade que estamos a construir. Desde a Antiguidade, onde a sua finalidade era a virtude e a ordem, passando pela Idade Média, com uma maior ligação à moralidade e autoridade, definiu-se que o bem comum estaria sempre acima do bem individual, que os governos deviam orientar a sociedade para uma plenitude humana através de condições financeiras, morais e sociais benéficas para todos. Com as revoluções políticas e sociais que se foram dando ao longo dos anos, passamos a ver o bem comum como a soma de iniciativas individuais, mas, paralelamente, ligado à justiça social, aos direitos laborais e à dignidade humana.
Mas será que ainda faz sentido falarmos de bem comum nos dias que correm?
Ainda que possa parecer que estamos cada vez mais longe de alcançar a plenitude humana anteriormente referida, hoje, mais do que nunca, temos todas as ferramentas necessárias para alcançar o bem comum. Então, o que falta? Talvez um esforço concertado para que cada cidadão se sinta parte integrante e não um mero espectador da vida política, social e económica. O bem comum constrói-se com participação em todas estas esferas.
Na sua origem, a política é uma prática orientada para objetivos coletivos, e um governo justo será aquele que orienta as suas decisões para a comunidade e não para uma classe ou um grupo restrito. Num estado moderno, essa missão exige garantir direitos fundamentais e assegurar condições de vida dignas, como a escola pública para que haja autonomia intelectual e mobilização social; a saúde pública, essencial para a qualidade de vida e produtividade da sociedade; além da segurança, infraestruturas, regulação económica e proteção ambiental.
Mas sabemos que nem sempre é esta a realidade. A corrupção mina a confiança, as promessas falham, e a perceção generalizada de que “o sistema está podre” alimenta o afastamento cívico. Porém, se tivermos um governo e uma democracia que põe o bem-estar geral acima dos interesses privados, sentiremos que somos ouvidos e que a nossa opinião realmente tem poder na esfera política.
O que podemos fazer para que isso aconteça? Estar devidamente informados para depois conseguirmos exercer os nossos direitos, como votar. Com o avanço tecnológico, as fontes de informação proliferaram. Contudo, é preciso distinguir entre aquelas que realmente mostram argumentos e contra-argumentos e aquelas que apenas pretendem o famoso “clickbite”.
Pequenos gestos podem não mudar o mundo, mas mudam mundos individuais e isso também é responsabilidade comunitária
Cada cidadão deve ser mais exigente consigo próprio e com quem o informa, procurando sempre saber mais e melhor. O bem comum torna-se o centro de uma negociação democrática e novas formas de governação, de cooperação e regulação podem aparecer. A participação da sociedade civil é fundamental para garantir que os seus governantes seguem um rumo comum a todos e não apenas a alguns. Para além disto, como membros da sociedade, cabe-nos estar a par do que acontece à nossa volta a nível local. O envolvimento com associações, projetos comunitários, iniciativas culturais ou ações de voluntariado aproxima-nos dos problemas reais e lembra-nos que a solidariedade continua a ser uma força transformadora. Pequenos gestos podem não mudar o mundo, mas mudam mundos individuais e isso também é responsabilidade comunitária.
Se pensarmos e nos colocarmos no lugar de outra pessoa, especialmente de quem tem mais dificuldades, rapidamente nos apercebemos de que podemos tornar aquela vida mais digna, mais confortável e mais pertencente à nossa comunidade. Pensar no bem comum é, no fundo, um exercício de empatia. É reconhecer que ninguém prospera sozinho, que uma sociedade é maior do que a soma dos seus interesses privados e que tentar viver como uma “ilha” acaba por nos deixar isolados. Numa altura em que é cada vez mais cada um por si, sejamos a diferença, sejamos mais para o outro, e façamos com que os nossos filhos aprendam connosco que tipo de comunidade é possível construir.
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