Biólogo e doutorando em Ciências Agrárias
É comum a admiração pela organização social das formigas e abelhas-do-mel. Pelas semelhanças comportamentais, não surpreende, portanto, que se encontrem reunidas pela ciência na mesma ordem taxonómica, denominada Hymenoptera (do grego hymen = membrana; pteron = asa). De “asas membranosas”, estes seres mostram-nos que criaturas com um cérebro do tamanho de um grão de areia podem partilhar estruturas sociais de enorme complexidade. Em certo sentido, a afinidade evolutiva desses insetos é equivalente à nossa proximidade com os macacos, com quem partilhamos a ordem Primates. De tão intrigante e complexo, o comportamento comunitá-rio de formigas e abelhas desde cedo ali-mentou a curiosidade humana, ao longo da história. Sobretudo, é salientada a função do indivíduo, num benefício comum, da sociedade onde se encontra.
Nós, Homo sapiens sapiens – “duplamente sábios”, portanto – trazemos inscrito na nossa designação científica a pretensão de sabedoria. Contudo, desenvolvemos de tal forma a nossa extraordinária capacidade inventiva, que fomos criando, aparentemente, um caminho para a nossa própria destruição. Com maior ou menor sentido literal, ela manifesta-se de diversas formas. Desde logo na crise climática, à qual fomos dando diversos nomes ao longo do tempo. Há cerca de três anos, na abertura da 27ª edição da Conferência das Partes no Egito, António Guterres alertava que “estamos numa autoestrada para o inferno climático com o nosso pé no acelerador”.
Além desta, possivelmente a mais crítica e desafiante, várias outras crises marcam a atualidade: conflitos militares, crise de valores, de humanidade, de empatia e de tolerância. A crise da habitação e da dignidade humana. Todas elas com distintas dimensões e impactos na vida das pessoas e no ambiente que as rodeia. Tudo, ou quase tudo, parece estar ameaçado e, portanto, em crise. Superar cada uma delas dependerá do que estamos a fazer no presente e do que viermos a fazer num futuro (muito) próximo. As soluções são apontadas à ciência, à inovação, à tecnologia, ao investimento e às vontades políticas. Também elas movidas pelas tendências e vontades populares e pelo (sempre limitante) fator económico. Prevalece a noção de que os “outros” irão resolver tais crises. Delegamos responsabilidades e esquecemo-nos, frequentemente, do nosso papel individual, do nosso pequeno círculo e do que podemos fazer em prol da “colmeia”.
O bem-comum não é apenas uma ideia abstrata, sendo a malha que sustenta famílias, comunidades, nações e ecossistemas
Pois bem, voltando aos seres de seis patas, abelhas e formigas nos mostram como os maiores desafios são resolvidos em conjunto. O intransponível de forma individual, se torna superável pelas dinâmicas do coletivo. Pelo altruísmo e pela determinação na persecução de um objetivo mais amplo. Aquele que não necessariamente favoreça diretamente o indivíduo, mas a comunidade.
Na biologia, favorecer a comunidade é favorecer a espécie, aumentando as suas probabilidades de continuidade no conhecido processo da seleção natural. E transmitem-se os genes para a geração seguinte. Nesta missão, brinda-nos um exemplo emblemático a andorinha-do-mar-ártica, que chega a percorrer uns impressionantes oitenta mil quilómetros a cada migração anual, de polo a polo. Faço este paralelo para relembrar da nossa condição biológica e evolutiva, em que sempre esteve presente o bem-comum. Ele assume, então, diferentes formas e dimensões. O do seio familiar é alicerçado na harmonia, no respeito e na cooperação em simples tarefas domésticas.
O bem-comum da comunidade pode abranger a singela ajuda ao próximo, o apoio social aos desfavorecidos, aos marginalizados e às minorias; a preservação e recuperação do património local, seja natural, cultural ou edificado. A recolha voluntária de lixo na praia, plantar árvores ou dar suporte aos idosos. O bem-comum da nação reflete-se em mais elevados índices de inclusão social, igualdade e instituições públicas que funcionam eficientemente. Em mais cultura e democracia. Em mais áreas com boa qualidade ambiental, em menores índices de poluição nas cidades, em mais bandeiras azuis nas praias e em superiores padrões de saúde e bem-estar das populações. Cada um destes patamares é o somatório do que lhe antecede.
O bem-comum da humanidade é, então, a soma disso tudo. Nisso podemos, e devemos, participar todos. O bem-comum não é apenas uma ideia abstrata, sendo a malha que sustenta famílias, comunidades, nações e ecossistemas.
Creio que não precisamos de inventar novos mecanismos para edificar o bem-comum, já que o trazemos inscrito na nossa condição de seres sociais. O desafio é reconhecê-lo e praticá-lo, mesmo nas pequenas ações quotidianas. O “sistema genético” também manteve ancestrais mecanismos de reparação. O bem-comum está nos nossos genes, e neles reside a capacidade de reparar o que quebramos.
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