É utopia a esperança?

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Diogo Divagações

Escrevo este texto a 30 de novembro. Estou de ressaca emocional do dia de ontem, e é acerca dele que quero falar.

Aconteceu no TeMa o espetáculo de encerramento do eixo da música do nãoLUGAR. Dezasseis jovens de Oliveira de Azeméis — uns com alguma, outros com nenhuma experiência em artes do espetáculo — subiram a palco e atuaram para uma plateia perto de esgotada. Até aqui, tudo comum. Esses jovens, de diferentes estratos sociais e com as particularidades que os compõem, enfrentaram medos, dúvidas, enfrentaram-se e superaram-se. Eu estive lá como artista também, como produtor, como amigo, como braços e ouvidos e sonho possível de alcançar até onde me é possível possibilitar.

O espetáculo foi bonito: as pessoas adoraram, surpreenderam-se e maravilharam-se também. Houve choro, riso, euforia e desejos assentes. Houve a concretização de que a vontade de querer fazer algo pelo bem — somente pelo bem — tem a consequência de dar mesmo alento no peito (independentemente de todas as condicionantes). Este projeto começou há um ano e findará, pelo menos neste ciclo, no mês de dezembro. Quando aceitei este projeto não sabia para onde isto iria, ou teria de ir. Entrei meio ingénuo, meio irresponsável, meio desligado, e depois a vida começou a acontecer.

Ontem olhei para seres que só querem sonhar e têm medo. Olhei para jovens que pensam em futuro, que estão sobressaltados com o mundo, que têm ansiedade ao viver. “Sinto-me grande e pequeno ao mesmo tempo”. Também eu me sinto assim, Gui.

E é aqui que percebemos o impacto real deste caminho: “Por causa deste projeto já sei o que quero fazer na escola… não teria coragem de fazer isto se não tivesse vindo para aqui”. São frases que nos atravessam porque revelam o essencial: não se deve abandonar projetos. A continuidade é, muitas vezes, o que salva uma ideia, um querer, uma vida inteira em construção. Estes miúdos disseram-no sem saber que estavam a nomear o coração do bem-comum.

Somos seres de comunidade; funcionamos por osmose e colecionamos memórias globais que nos permitem crescer e desenvolver o senso de sobrevivência. O senso de cuidado.

Vivemos tempos desafiantes — toda a gente o sabe e sente. Por vezes nem sabemos bem o que sentimos, mas há uma névoa de tudo ser rápido demais, de tudo ser para ontem, de tudo ser superficial. Mas lá está: não é tudo. Há momentos para respirar, para saber que o futuro é agora, mas também é o que chega com a maneira como caminhamos até ele. Há um crescer que é necessário ser feito acompanhados.

É aqui que entra o porquê do bem–comum e onde o vejo. Trabalhar com comunidades exige presença, entrega, vulnerabilidade e resiliência. Exige muita coisa — muito mais do que parece — e traz para plano principal a noção da entrega, da força e desse “ninguém solta a mão de ninguém”.

Somos seres de comunidade; funcionamos por osmose e colecionamos memórias globais que nos permitem crescer e desenvolver o senso de sobrevivência. O senso de cuidado. O mundo tende à entropia, o ser tende ao desequilíbrio, e o aglutinador é o bem-querer. O bem do outro. O lugar onde podemos ser-nos casa. Acreditar que podemos ser casas-coração.

Num momento em que se vê o futuro colapsar na desinformação e na mesmice dos erros, olhamos para os jovens como espaço incauto que, na sequência dos comportamentos de descrédito, se fecham e se condenam a um lugar desabitado de crença, estímulo e esperança.

É preciso dizer com clareza o que ameaça o bem-comum: o individualismo que nos isola, a precariedade que esgota o sonho, a ansiedade que se instala como norma, o abandono institucional que trata processos transformadores como exceções e a falta de políticas culturais capazes de garantir continuidade. Nomeá-los é parte do trabalho de proteger o que ainda pode crescer.

Mas o bem-comum não é apenas o que fazemos quando estamos juntos. É o que decidimos não deixar cair quando a pressa ou o cansaço nos empurram para longe. É a prova íntima de que não estamos aqui só para a nossa sobrevivência. Há um pacto silencioso que diz que viver não é exercício solitário.

Dar-nos ao mundo não significa exaustão. Significa reconhecer que a existência ganha sentido quando impede alguém de ficar para trás. Cada gesto de cuidado pode ser a diferença entre desistir ou avançar.

O futuro só melhora quando recusamos a ideia de que há vidas descartáveis. Abandonar alguém — um jovem, um velho, um desconhecido — abre fissuras onde o futuro se perde. Estas fissuras tornam-se fraturas sociais e morais. E é nesse desgaste que a indiferença e a desinformação se alimentam.

Por isso, o bem-comum é exercício contínuo. Ver o outro. Não o deixar cair. Criar condições para que cresça. Exige uma ética da permanência, do cuidado sem espetáculo, da presença que não precisa de anúncio.

O caminho é continuidade. Proteger processos que funcionam. Criar espaços onde ninguém precise de desaparecer para sobreviver. O futuro melhora quando damos tempo ao que precisa de tempo e recusamos abandonar quem ainda está a aprender a acreditar.

Quando vejo estes jovens, percebo que a esperança é trabalho concreto. É o que construímos com as escolhas que fazemos e com o que decidimos sustentar. É dizer ao mundo: “o teu futuro importa-me”.

E talvez seja isso que mais me devolve ao centro: saber que ainda é possível criar lugares onde ninguém fica de fora. Onde o medo se partilha. Onde o sonho se treina. Onde o futuro não depende da sorte, mas da responsabilidade que assumimos uns pelos outros.

O bem-comum é isto: não desistir de ninguém. E, ao fazê-lo, descobrir que também não desistimos de nós.

Diogo Divagações

Artista multidisciplinar com foco predominante na poesia, tem marcado a sua trajetória desde 2009 com a publicação de dois livros e a sua participação em diversos projetos musicais. Destaca-se o trabalho com La Fura dels Baus e a recente representação de Portugal no Spoken Word Festival, em Varsóvia, e no Youth Slam for the Future no Conselho da Europa, em Estrasburgo. Atualmente, explora a sonoplastia e a produção musical, tanto nas suas criações quanto em parcerias com artistas e companhias. Das artes cénicas à música, da performance às leituras, tem consolidado a sua obra com base na crença em comunicar até "que os ouvidos nos liguem os corações".