Música de profissão
Perguntaram-me por estes dias o que era a solidariedade numa altura em que cada vez mais o individualismo se sobrepõe ao bem-estar colectivo. Solidariedade, o termo, não mudou de definição. Talvez que no entender mais recente de parte da opinião pública, com alegado incentivo, se tenha radicalizado. Como se esse bem comum passasse a utopia pregada pela caricatura de meia dúzia de líricos com um posicionamento político tendencialmente canhoto, entretanto acusado de extremado, na era da pós-verdade.
Nos meus trinta anos de vida, cresci com os ensinamentos de quem viveu uma realidade que não cheguei a conhecer. Da pobreza ao analfabetismo, do silêncio imposto, ao deus, pátria, família. Conceitos que Abril procurou combater, desmistificar, e tantos outros objectivos que não se concretizaram com o sucesso almejado, sabendo que uma revolução é o meio para atingir não um fim mas uma mudança que precisa(ria) de continuar a ser regada. [«FMI», José Mário Branco]
Aprendi, também, que a história é cíclica. E se há negacionismos e negacionismos, o meu foi (é?) o de não deixar de acreditar na empatia enquanto valor inabalável, e que, ainda que cíclica, essa mesma história bastaria como aprendizagem para evitar retrocessos que trouxessem neo-coisas muito velhinhas, de cheiro a naftalina já tóxico. Coisas velhinhas de gastas, coisas velhinhas de bacocas, coisas velhinhas cujo diminutivo deixa de fazer sentido perante a seriedade do prefixo. Quando as coisas velhas e velhinhas são remodeladas, tinta nova, travestidas de modernas, e os alicerces se mantêm podres por debaixo dos novos enfeites. [«Coisas do Passado», Maria Reis]
O analfabetismo passou a analfabetismo funcional, e a pobreza acusada de falta de resiliência. O deus, pátria e família talvez nunca tenha sido desmistificado na dose necessária. Que deus só o católico, que a pátria nunca deixou de ser a mesma nos livros da escola, do orgulho nacional dos descobrimentos (versão fofinha) ao hino fora de moda, mais o assobiar para o lado sobre o colonialismo.
Faço um parêntesis para galhofa: há cinéfilos que, numa óbvia referência ao filme de Tim Burton, tentaram o remake possível do Beetlejuice na vida real, com a diferença do nome e personagem a invocar três vezes. No caso, seria o do senhor que claramente não foi a Paços de Ferreira comprar uma cadeira de qualidade, com certeza para manter as tão exaltadas contas equilibradas nos cofres daquele Portugal cinzento. A outra possibilidade é a de ter sido apenas saudosismo, pese embora que, nesse cenário, o filme passasse a série B. É que se a nostalgia se referia ao tal país que se queria caladinho, estes senhores fazem um basqueiro que não se pode. Pouco barulho, se faz favor. Não sendo pela democracia, que seja pelos ouvidos dos cidadãos, os merecedores, portanto. Apregoar bobagem, sim senhor, mas em baixinho. [«Dar de beber à desventura» Fado Bicha]
O fio condutor remete-me ao supracitado silêncio. Ou ao discorrer sobre o que sufocava quem ousasse questionar, que torturava quem ousasse questionar. Aquele que matou os subversivos e suas questões.
Esse silêncio desapareceu e é por isso que me dão o aval de escrever esta prosa. Outros foram aparecendo em seu lugar: o da conivência, por exemplo.
O silêncio da conivência pode muito bem ser confundido com a sabedoria de não querer polarizar questões. Mas como escolher ficar calado enquanto se vai destruindo quase subtilmente a dignidade das necessidades de uma população? Do SNS, da educação pública, do custo dos alimentos básicos, da habitação. Como assim a habitação? Tanta gente sem casa, tanta casa sem gente. [«Brincar Com o Cão», Chica]
Quando as coisas velhas e velhinhas são remodeladas, tinta nova, travestidas de modernas, e os alicerces se mantêm podres por debaixo dos novos enfeites. [«Coisas do Passado», Maria Reis]
Adiante. O silêncio só não é privilégio quando volta a ser sufoco. Já não o de boca tapada, mas o da impotência.
E onde está o colectivo do bem-estar?
Cada vez mais tremido, nunca morto. Está em espalhar a palavra, tarefa que começa em cada um, de que estamos todes juntes, porque temos mais em comum com quem se aponta a culpa (a culpa, a culpa) dos males do país e do mundo: as pessoas com mais melanina do que os originais, puros caucasianos e honrosos portugueses das grandes fortunas cujo dinheiro dos impostos passa férias nos mesmos sítios que os donos. [«Marcha dos Implacáveis», Afonso Pais e JP Simões].
Quando digo ‘todes juntes’ (sim, na linguagem inclusiva que devia ter usado desde início), refiro-me a uma ideia tão aparentemente simples: a de estarmos lado a lado a reivindicar o tanto que ainda precisa de ser alcançado, seja nos direitos constitucionais, seja no desmistificar de preconceitos do dia-a-dia, do machismo ao racismo, à integração da comunidade LGBTQIA+. A palavra é uma arma, como a cantiga, e é a mais potente que temos, antes de qualquer outra.
Na impossibilidade de aprofundar cada problemática que aqui tentei enumerar amiúde – avisam-me da régie que tenho de terminar a dissertação – reforço que, de mãos dadas com uns tais lugares de fala, urge discutir e impulsionar a noção generalizada de que os nossos direitos não têm necessariamente de ser os ‘meus/teus’ para os poder(mos) chamar assim. [«condição» redoma] Viver em comunidade. Assim mesmo, com toda a ingenuidade a que possa soar: caminhando se faz caminho.
Ó artista, e a cultura, pá? Nem ministério próprio tem. Deixo para um próximo episódio, quando me passar o luto*.
*Não me interpretem mal, a saúde da arte actualmente a ser produzida vai óptima e recomenda-se. As condições e sua importância, aos olhos de outros olhos, é que se medem às décimas. Metafórica e literalmente. Contrariando a lógica, fui deixando parêntesis a itálico com canções que me pareceram complementos coerentes no seguimento de certos raciocínios ao longo do texto. Há delas tipo balas de pontaria afinada.
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