A Paz e os Direitos Humanos não podem ser só um sonho

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José António Gomes

Escritor e membro da direção nacional do Movimento pela Defesa dos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente (MPPM)

Não obstante as atitudes pessoais que, tantas vezes, nos quebram o alento (a ideia de cada um por si, o comodismo, o puro oportunismo no plano socioprofissional e aquilo a que chamo o individualismo feroz, desumano, e que o liberalismo capitalista sempre fomentou), continuam a surpreender-nos as construções coletivas e os atos de pura solidariedade e de humana fraternidade – que não devem, a meu ver, ser confundidos com aquilo a que, numa célebre canção, José Barata-Moura chamava “brincar à caridadezinha”.

Com o “ativismo” e o desabafo facebookiano não se vai lá, por muito que tantos achem que sim. Mas, sem secundarizar o papel das redes sociais, importa igualmente ter consciência de que o aparente demissionismo em relação a ações de rua – tão relevantes em termos de participação cívica e tão produtoras de efeito por muito que disso se duvide (manifestações, concentrações, desfiles e atos públicos em espaço aberto) –, esse demissionismo esconde por vezes outra face, solidária, que nos apanha desprevenidos. Em 2025, por exemplo, uma iniciativa minha e das ilustradoras Ana Biscaia e Inês Oliveira, condenando o genocídio na Palestina, por parte do governo e das forças militares israelitas, e exprimindo uma especial solidariedade com as crianças martirizadas de Gaza logrou, em menos de dez dias, obter uma adesão de mais de centena e meia de escritores, ilustradores, estudiosos, editores, bibliotecários e animadores da leitura ligados à área do livro infanto-juvenil. Gente de todo o país que é raro vermos na rua mas que subscreveu (em alguns casos buscou, assumidamente, subscrever) um texto de condenação e de solidariedade que conheceu larga difusão, inclusive nos média, e que involuntariamente acompanhou outra tomada de posição pública de escritores no mesmo sentido, promovida pela Fundação José Saramago. Deu-nos a ver que a maioria dos criadores destas áreas estavam e estão do lado da Paz, da independência e soberania da Palestina (e importa reafirmá-lo, porque também há quem não esteja – sequer do lado da Paz). E isso instila-nos, obviamente, ânimo e energia para prosseguir. E também para contrariar a desinformação, as notícias falsas, a intoxicação propagandística, a manipulação, o silenciamento do pacifismo, que são o bolorento pão-nosso-de-cada-dia, nas televisões e na maioria da imprensa, dominadas por grandes grupos económicos e pelos seus interesses.

O movimento pela Paz tem conhecido em Portugal momentos de grande expressão, e até exaltação, nos últimos três anos. E conseguiu concorrer para indiscutíveis vitórias, a principal das quais foi o reconhecimento pelo governo português do Estado da Palestina (tivesse espaço e de outras poderia falar). Enquanto plataforma unitária agregadora e colaboradora, o Movimento pela Defesa dos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente (MPPM, a cuja direção nacional pertenço), em cooperação com outras organizações como o Conselho Português para a Paz e a Cooperação, a associação juvenil Projeto Ruído, a CGTP, mas também com o Coletivo pela Libertação da Palestina, o grupo Arte pela Palestina, a Parents for Peace, os Judeus pela Paz e Justiça, associações de imigrantes, coletivos do movimento LGBT, sindicatos, o Movimento Democrático das Mulheres, a União dos Resistentes Antifascistas Portugueses, a Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, diversas associações estudantis e culturais e outros movimentos, o MPPM, dizia, tem logrado, à sua escala, lançar de modos diversos, e num espírito de abertura e cooperação, as bases de um projeto a que poderíamos chamar de construção de um mundo mais habitável, um mundo de paz, de justiça e de respeito pelos Direitos Humanos. E claro está, nesse mundo que queremos, não é possível conceber um genocídio como o que testemunhamos em Gaza, à vista de todos, incluindo – o que é verdadeiramente grave – de governos e responsáveis políticos coniventes, ao longo de tempos intermináveis, com a limpeza étnica, com o apartheid, com a violação do Direito Internacional e das resoluções da ONU, e com novas formas de colonialismo e de fascismo de que vamos sendo assombradas testemunhas.

A par das ações de rua que se multiplicaram (são centenas por todo o país, nos últimos anos, das mais modestas às mais expressivas), muitas outras iniciativas vêm sendo levadas a cabo: petições, cartas ao MNE e à presidência do governo, cooperação com organizações estrangeiras congéneres, debates em universidades, escolas e agremiações culturais, exposições (documentais, de fotografia, de ilustração, de poesia visual, de objetos artísticos…), ciclos de cinema palestino, sessões de poesia e de conta-contos, apresentações de livros e muitas outras. Para tecer uma ampla rede nacional e internacional em prol da paz, do respeito pelos Direitos Humanos e da soberania da Palestina, é trabalhoso, mas ao mesmo tempo inestimável, todo este conjunto de iniciativas, que certamente irão continuar e que alimentam a nossa esperança.

E este é também, acrescente-se, um modo de continuarmos a combater o medo e o isolamento (duas das maleitas que minam a participação cívica e política) e a exercer, valorizando-a, a livre expressão do pensamento.

Para o MPPM e para os ativistas do movimento pela Paz, os célebres versos do grande poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956) não caem em saco roto:

“Há homens que lutam um dia, e são bons;
há outros que lutam um ano, e são melhores;
há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
porém há os que lutam toda a vida,
estes são os imprescindíveis.”