Escritora e programadora cultural
Caminho perto de casa, o corpo quente, as ideias insufladas pelo movimento e pela contemplação. Sei que a árvore tem memória. Basta notar os anéis de crescimento do tronco, as raízes que alertam sobre perigos e pragas. E aquelas extraordinárias que, violentamente inclinadas pelo vento, não esquecem a forma anterior e crescem na primeira direção. O que há de primitivo na árvore e em nós tem muita força. As plantas não competem só por recursos, também os partilham. Não temos aprendido tudo com as plantas. Não seria necessário muito altruísmo, apenas a biologia: a sobrevivência coletiva é mais vantajosa do que a luta individualista. Ou o tecido comum rompe-se e com ele todos os planos que tínhamos. Tínhamos tantos planos. Estudámos para aumentar a competitividade, palavra rota de tão dita. Bastava ter olhado as árvores como tento olhar agora, aqui há sinais químicos no ar e no solo que não decifro. Na maior parte do tempo não temos tempo. Quando é que toda esta pressa e ruído se instalaram?
Medito nas palavras de alguém muito sábio. No livro A Última Lição de José Gil, longa conversa que mantive com o filósofo ao longo de seis meses, pergunto-lhe se encontra, hoje, algum foco de esperança, depois de dissecar as grandes crises que atravessamos e que fazem aumentar o desalento e a perplexidade: crescimento da extrema-direita, uso da inteligência artificial por forças de morte, não de vida, e crise climática. José Gil responde: “É impossível viver em desespero. Viver em desespero significa matar-se. Viver é ter esperança. Só posso responder desta maneira vaga e, no entanto, precisa. É porque vivemos e porque a vida é esperança que eu tenho esperança, perante tudo o que nos pode acontecer.” Medito na ideia de utopia. Como dar-lhe uma forma de revolução graciosa?
A bondade não é televisionada como a desgraça, nem alimenta o algoritmo. É preciso voltarmos a lembrar que todos os dias há quem nutra e incentive e aplauda e construa. Todos os dias, todos, há quem insista e persista em criar espaços onde a vida pode ser partilhada na sua diferença que a torna tão preciosa, todos os dias há quem decida com ética, há quem multiplique alegria, há quem regenere, dance, há quem lute contra a desigualdade, o medo, contra o que é torpe, há quem plante intimidade contra o superficial, há quem crie música que nos transmuta. Todos os dias há quem escolha amar, e quem ajude quem ainda não o pode escolher.
A cultura não é da ordem do sagrado nem poderá ser um luxo. A cultura é quotidiana e comunitária; não é dos artistas, é de quem está vivo
A floresta é uma família. Troncos de árvores mortas podem continuar vivos por décadas, sustentados por vizinhas que lhes fornecem seiva através das raízes. Esses troncos abrigam vida. E nós, se algo fizermos além de nós, seremos abrigo para quem ainda não nasceu. Somos herdeiros dos sacrifícios e realizações de gerações e gerações. A vida melhorou muito. E se hoje uma certa ideia de progresso se corrompe, se tudo parece perto do esgotamento, solo e árvores e nós, devemos pedir uma pausa. Perguntar melhor, pensar melhor, amar melhor. Não nascemos para nos separar, nascemos para nos fundir numa matéria mais livre. Contra o anonimato, o afeto floresce onde há escuta, curiosidade e histórias. Esse desejo precede a linguagem. Pergunto a José Gil sobre incomunicabilidade e dessincronização de ritmos. A palavra está a unir ou a dividir mais? A resposta é vigorosa: “É evidente que a vocação da palavra é unir. Comunicar para unir e não é só na mensagem – é o que a linguagem traz de infra-verbal […]. A palavra pode matar. Pode ter uma força de mobilização que condiciona totalmente o outro. […] Tirem-se as palavras e desaparecem as sociedades, desaparece a comunidade humana. Mas o discurso de ódio, hoje, também é letal.” Se uma mão tem o poder de construir, a outra tem o poder de destruir. Que mão usaremos? A palavra é o nosso bem comum, cuidemo-la para erguer mundos mais justos.
O silêncio da árvore tem muito texto. Quero lembrar a poetisa Mary Oliver. “Instruções para viver uma vida:/ Presta atenção./ Espanta-te./ Fala disso.” Espanto e memória: poderosas formas para vivermos vidas mais belas e dignas.
A nossa democracia falha porque a nossa cultura está a falhar. A cultura não é da ordem do sagrado nem poderá ser um luxo. A cultura é quotidiana e comunitária; não é dos artistas, é de quem está vivo. Cultura é a resistência que cuida e cultiva. Seria bom convocarmos palavras como ligações e possibilidades de rondar a compreensão, não artifícios de manipulação e distorção. A palavra que adensa a indefinição, ambiguidade e hesitação que ser humano comporta, não se iludindo com certezas fáceis. Porque falhamos, procuramos e continuamos. Se a máquina repete, o humano varia, e nessa variação estão clareiras por abrir.
O único recurso infinito é a imaginação. Saibamos nós imaginar.
INFO
ARQUIVO
LOCALIZAÇÃO & CONTACTOS
@ 2026 Maré Viva – Jornal Regional de Espinho
Made by CircleTec.
Para proporcionar as melhores experiências, utilizamos tecnologias como cookies para armazenar e/ou aceder a informações do dispositivo. Ao consentir com estas tecnologias, permite-nos processar dados, como o comportamento de navegação ou ID's exclusivos neste site. O não consentimento ou a sua retirada pode afetar negativamente certos recursos e funcionalidades.