Café Filosófico não é uma “conversa de café”

30 Abril, 2013

Hoje, terça-feira, dia 30 de abril, Espinho será palco de um Café Filosófico. A iniciativa realiza-se na Oficina Atelier das Artes e as inscrições são gratuitas. O Maré Viva esteve à conversa com o moderador, Tomás Magalhães Carneiro, que explicou do que se fala num evento deste género.

O que é um Café Filosófico?
Um Café Filosófico é uma tentativa de reanimar o espírito de curiosidade e aventura intelectual que animou os primeiros filósofos, como Sócrates e Platão, etc. na ágora ateniense. Realiza-se num espaço público, gratuito e aberto e acolhe quem queira participar num diálogo racional e educado sobre alguns dos grandes problemas que sempre inquietaram o ser humano. Para participar, não é necessário qualquer conhecimento de história da filosofia. Um Café Filosófico, mais que uma reprodução ou avaliação de argumentos e ideias alheias, é um exercício pessoal de construção de conhecimento.

Qual é o seu papel enquanto moderador?
Num Café Filosófico, o moderador é uma espécie de árbitro que zela para que sejam cumpridas as regras do diálogo filosófico. Deve, acima de tudo, procurar que os participantes consigam dialogar entre si, garantindo que se escutem ativamente uns aos outros, que se exprimam da forma mais clara possível e que se encontrem naquilo que está a ser discutido. Um Café Filosófico não é uma “conversa de café”. Mais importante e interessante que expressarmos as nossas opiniões e ideias, é escutar as opiniões e ideias dos outros pois são estas que irão pôr em causa as nossas crenças e pressupostos mais fundamentais. São estas que nos irão inquietar e permitir ver a realidade de outra perspectiva além da nossa.

O que podem os participantes esperar do Café Filosófico a realizar dia 30 em Espinho?
O facto de um Café Filosófico depender exclusivamente das intervenções e ideias dos participantes faz com que seja um pouco difícil prever o que irá acontecer. No entanto, de uma forma geral, costuma criar-se uma atmosfera de desafio e fair-play intelectual bastante estimulante.

Que assuntos se debatem nestas iniciativas?
Em qualquer Café Filosófico, independentemente do ponto de partida, invariavelmente iremos confrontar-nos com algumas das grandes questões da filosofia. Não temos nenhuma esperança em as resolver definitivamente, mas contentamo-nos em tentar compreendê-las, saboreá-las e contorcer-nos nelas durante um bom par de horas. Poderão encontrar exemplos de algumas dessas questões no blogue do Café Filosófico: http://umcafefilosofico.blogspot.pt/.

Numa altura em que se fala muito em crise, e de valores, é importante que os cidadãos debatam?
No que concerne ao debate, a minha impressão é que normalmente o vemos como mais uma oportunidade para veicular as nossas ideias, as nossas crenças e valores adquiridos e não tanto para fazer algo muito mais interessante e útil como pôr em causa, analisar e problematizar essas nossas ideias, crenças e valores. Um debate de ideias devia servir para “desdogmatizar os nossos dogmas”, para nos fazer duvidar e assombrar perante a nossa enorme ignorância e não para criar ainda mais dogmas e falsas certezas. Mas isso raramente acontece. Acredito que esses debates tenham de existir, que cumprem uma função cívica e democrática muito importante e há-os, de facto, um pouco por todo o lado. Mas um Café Filosófico pretende ser algo bastante diferente disso. Aqui o debate, ou o confronto de argumentos e ideias, não deve servir propósitos retóricos, ou seja, vencer discussões, mas sim de instrumento filosófico para aprofundarmos problemas, encontrarmos pressupostos até aí insuspeitos, analisarmos valores e colocarmos em causa crenças fundamentais que vemos como verdades absolutas. Se sairmos de um Café Filosófico com mais certezas que dúvidas então é porque algo correu mal.

Como surgiram na sua vida os cafés filosóficos?
Após ter acabado a licenciatura e uma pós-graduação em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, preparava-me para iniciar um doutoramento na área da “Filosofia das Emoções” quando percebi que não fora “talhado” para a vida académica. Além disso percebi que, algo paradoxalmente, anos de estudo isolado e fechado sobre mim mesmo e os “meus livros” me tinham toldado o raciocínio e a criatividade. No entanto, não quis abandonar a filosofia à qual me dedico diariamente desde o fim da adolescência, pelo que os Cafés Filosóficos surgiram como uma oportunidade de continuar a filosofar fora da “academia” e a manter vivo o meu interesse pelos problemas filosóficos. Hoje em dia, vejo a filosofia e o filosofar de uma forma muito menos estática e rígida, muito mais dinâmica e viva, mais leve e relaxada do que a via anteriormente. Vejo a filosofia como uma espécie de jogo, uma aventura quotidiana e não mais como uma matéria a ser estudada. A filosofia como ela deve ser, uma forma de vida e não uma profissão.




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