Jobs

16 Outubro, 2013

Vivemos num mundo cínico que prefere valorizar o sucesso financeiro à criatividade. Esta é a conclusão que retiro de ‘Jobs’, filme que retrata a ascensão do cocriador e porta-voz da Apple desde a criação de componentes numa garagem poeirenta até se tornar um gigante das tecnologias. Num mundo justo, este filme chamar-se-ia ‘Wozniak’ e deixaria Steve Jobs para o papel secundário de génio comercialista – e embora esta não seja a mensagem que o filme quis passar, o certo é que ele ganha pontos por não santificar a figura de Jobs. A avaliar pelo filme, Jobs era um ser mesquinho, egocêntrico e cruel que não hesitava em despedir os melhores colaboradores apenas porque estes tinham divergências de opinião e não incorporavam a “filosofia Apple” (um conceito indecifrável, já que “estilo” e qualidade” dos produtos são apenas características técnicas). Contudo, se isto é algo a favor de ‘Jobs’ também o mais complexo que o filme ousa atingir uma vez que nem se preocupa em esclarecer a hipocrisia de Jobs ao sentir-se plagiado por Bill Gates quando ele próprio roubou ideias de terceiros. Quanto à tão apregoada interpretação de Ashton Kutcher, realmente o ator tem semelhanças incríveis com Jobs, mas todo o seu trabalho não passa disso: uma imitação. Já a Apple, como empresa, é filmada com tom reverenciador que opta por ocultar as suas falhas e insucessos (mesmo um fiasco como o computador Lisa é logo minimizado pelo sucesso do Macintosh) e que muito deve a Steve Jobs (o que é verdade), mas não pelo engenho deste e sim pelo seu olho para o marketing que enfeitiça fãs (notem: fãs de uma empresa!) a aplaudirem produtos e aplicações mal eles são apresentados e dos quais pouco sabem e a fazer filas intermináveis para serem os primeiros a usufruir de um… eletrodoméstico.

Antero Eduardo Monteiro




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